logoSign upLog in
João Batista Carvalho Filho

João Batista Carvalho Filho

A DOR DA PERDA - Não existem palavras, línguas, gestos, eu sofri a dor que é o pesadelo de todo pai, a inversão da ordem natural das coisas: perda de mais um filho. Meu filho Welington Eduardo de Carvalho, o Cabeça, o Carcaça, apelidos carinhosos, esteve no mundo durante 37 anos e passou a vida inteira na realidade do seu próprio mundo, com corpo de adulto e coração e alma de criança, para nós "A Dor da Partida de Um Filho Amado". Ela é tão profundamente dolorida e fere a alma com esmero desmedido, cortando lenta e dolorosamente com o lado cego da faca. A dor é fenomenal, incrivelmente dor, extraordinariamente dor, fatalmente dor. É dor, dor, dor, somente dor, nada mais que dor. E não cede, não acalma, não dá trégua. A alma se contorce, revolve, chora, berra e geme em lamentos surdos, que tomam o corpo, que fazem cambalear e entontecer o espírito.
A dor da perda não tem som, não tem voz, e invade o âmago do ser silenciosa e cruelmente fazendo doer e adoecer o corpo. Massacra a alma a tal ponto de tudo ao redor perder o sentido. Tudo perder o sentido e o brilho da vida.
Os olhos olham mas nada veem, os ouvidos ouvem sem nada ouvir, os braços caem sem sentir qualquer amparo, qualquer sussurro de compreensão, de entendimento. Somente o gosto do sangue da dor é percebido no fundo do coração que sangra, falece e se afunda no fundo da terra, do pó. E tudo vira dor profunda e cortante como o fio de uma navalha. Os sentidos perdem a razão de ser. Robotizamos o corpo e caminhamos, perdidos e anestesiados de lá pra cá, de cá pra lá, desnorteados, confundidos, atordoados e completamente perdidos de nós mesmos. Esquecidos de tudo e de todos, menos da dor que rasga, dói e arranha o coração até o sangue jorrar em lágrimas profusas e gritos inaudíveis.
A dor da perda cala fundo e faz sepultura da alma onde desejamos ardentemente nos enterrar, em silêncio absoluto, em escuridão infinda, em adormecer eterno. Faz desejar a morte e buscar o fim de tudo, inclusive de si mesmo, para calar... a dor...
Não existem palavras que definam a intensidade da dor da perda. Ela é tão incrivelmente dor que perdemos a definição e a expressão do que sentimos. Nada mais importa. Nada. A dor da perda é pesada demais. Impossível de se carregar solitariamente. Por isso, por tudo isso, havemos de buscar forças para suportar a dor da perda, por mais profunda, pungente e dolorida que seja, por mais aterradora e insensível...
Havemos de nos resguardar da dor, de acordar e lutar para viver, mesmo a alma em soluços, mesmo que o espírito, anestesiado pela dor, perca a vontade de lutar e continuar a viver... havemos de nos resguardar da dor.
Como suportar este momento da partida dos nossos filhos, eles não estão mas conosco, deixaram de existir entre nós. Como tirar o afeto (amor) que tínhamos depositado neles, não é algo fácil nem voluntário para um Pai e uma Mãe, porque envolve processos que estão fora da consciência e do coração, embora uma parte do nosso eu reconheça que os nossos filhos partiram , outra parte ainda mantém a presença deles. Como um Pai e uma Mãe poderá tirar o seu filho da sua vida, do seu viver, do seu coração, dos seus pensamentos, das suas lembranças, Como? Isto nunca acontecerá, aprenderemos a viver sem eles, e com o passar do tempo ainda continuaremos a ama-los.
Como é difícil desfazer das coisas que pertenceram aos nossos filhos, das roupas, dos calçados, dos objetos pessoais, enfim de tudo que foram do uso deles ao longo dos anos de existência em nosso meio. Como desfazer? É como estarem partindo pela segunda vez de nossas vidas. A dor não cede, não acalma, não dá trégua ...A saudade é o que fica daquilo que partiu, daquilo que já não é mais. Saudade é ausência, é o sentimento de vazio que fica daquilo que se foi. Mas às vezes, a saudade é um vazio tão grande que ocupa muito espaço dentro do coração, e aperta tanto o peito que acaba transbordando e escorrendo pelos olhos.
Se sentimos saudades de um filho é porque a saudade nos trouxe felicidade, foi um filho que amamos. Por isso a saudade dói. A saudade é a insistência da memória de manter vivo, presente e perto de nós o que já não temos. A saudade faz o ponto final virar uma vírgula na vida.
Há saudades que se podem matar, há outras que são capazes de nos fazer morrer. Mas a saudade é sempre uma memória de amor que não morre.
Julio Augusto de Carvalho e Welington Eduardo de Carvalho

João Batista Carvalho Filho
Relevant