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Francisco Ferrari

Francisco Ferrari

To Perfis operacionais19/06/2015

VOCÊ QUER SER LÍDER ?
Se perguntarmos as pessoas, talvez de chofre, muitas respondam que “é claro, que sim, eu quero ser líder!”. Afinal, ser líder numa profissão, numa organização, num grupo, ou numa sociedade e em um sistema econômico como o nosso, onde a competição é uma prática corrente nas relações, ser líder é visto como o vencedor, aquele que se destaca como o melhor, é ter sucesso.

As pessoas tendem a pensar que a idéia de liderança traz em si apenas algo que seja bom. Isto é, ser líder é ter autonomia, liberdade, é ser uma referência de sucesso, é ter seguidores e estar, de certa forma, “investido de poder”. É ser alguém que faz as coisas acontecerem, é ser admirado e respeitado. Assim, quem não gostaria de ser líder?

Diferentemente dessa visão romântica e idealizada, me parece que as coisas podem ser um pouco mais complexas e, por isso, insisto em perguntar: “o que você está disposto a perder para ser líder?” Essa pergunta talvez surpreenda porque levanta a suspeita que ocupar uma posição de liderança pode não ser uma coisa boa. Num mundo onde todos parecem querer ser líderes e ter sucesso, o que se deveria perder para chegar lá? Afinal, este “lá” não é o lugar “certo”? É preciso perder algo? Não é através do acúmulo de conhecimentos, competências, habilidades e atitudes que chegamos “lá”? Não seria este o norte, o caminho?

Como diria Bauman, Lipovetsky e tantos outros vivemos num mundo onde quebramos a “jaula que nos prendia” ; hoje podemos construir novas relações, novas profissões, novos valores. Não estamos mais presos a padrões sociais tão rígidos, há uma multiplicidade de formas de ser e de viver. Estamos “desbussolados”, como diria Jorge Forbes, sem saber mais o que nos norteia (valores, regras, profissões, formas de relações afetivas, etc) e vivendo num mundo onde o instante se impõe a nós, como um “presentismo”(como disse em “Sobre o tempo e o gerundismo”). Sem saber o norte, muitos se espelham naquilo que se encontra mais à luz, mais em evidência e mais padronizado como “certo”. Quando olhamos para uma pessoa que se destaca, seja numa organização, seja na política, seja na mídia em geral (como artistas, por exemplo) tendemos a pensar que liderança e sucesso são coisas boas. Não nos perguntamos se de fato queremos ser líderes e quais os preços que vamos pagar para ocupar esta posição. Muito menos, procuramos compreender o que se passa atrás dos palcos da vida desses que tomamos como exemplos, apenas pensamos como é bom estar à frente do palco e receber os aplausos.

A posição de líder traz junto consigo aspectos quase nunca citados nos livros de liderança ou nas revistas das celebridades (executivas e artísticas). O líder não provoca apenas admiração, provoca também inveja, fofocas, reações agressivas, hostilidade e, além disso, encontra à sua frente muita angústia e solidão. Lidar com esses sentimentos pode não ser algo agradável. Depois de muita busca, muitos acabam se ressentindo das novas relações que emergem a partir dessa nova posição. É comum encontramos grandes líderes se queixando da dificuldade de lidar com a angústia e a solidão nas tomadas de decisões (que passam a ser cada vez mais constantes e intensas ), muitos acabam se ressentindo da hostilidade que passam a receber, sentem-se solitários e rejeitados, embora sejam admirados e seguidos por muitos.

Essa situação ambígua, que a liderança traz em si, pode ser difícil de se lidar com ela, mais ainda quando não se está preparado para isto. Muitos não sabem por que chegaram a ser líderes, isto é, não foram se perguntando se, de fato, era isto que queriam, não gastaram tempo indagando se este era mesmo o caminho a trilhar e quais seriam suas conseqüências. Colados num discurso padrão de que ser líder é “ser o bom”, não conseguiram ponderar os preços que poderiam ser cobrados, passando a buscar algo apenas orientado por uma imagem, um ideal romântico de que o “certo” é ser “o líder”, “o cara”.

É por isso que insisto na pergunta “você quer ser líder?” isto porque não vejo as pessoas preocupadas no porque querem ser líderes, em como alcançar este objetivo e quais as possíveis consequências desta escolha. Dois exemplos, um da literatura e outro do cinema, marcam bem o dilema desta escolha. Penso nestas referências porque das artes podemos extrair o que temos de mais humano, a compreensão da nossa complexidade. Isto é, nossa estranha forma de sermos razão e sensibilidade (emoção) ao mesmo tempo. No livro Grande Sertão Veredas, o personagem Riobaldo não se enganou e viveu seu dilema até o fim. No meio do caminho era preciso fazer um pacto (seja com o “demo” ou com ele mesmo), era preciso “fechar o corpo”, abrir mão de uma forma de vida para adentrar uma outra onde a coragem deveria prevalecer para fazer o que ele queria, isto é, conduzir um grupo de jagunços através das querelas do sertão. Tomar a liderança do grupo não é algo que simplesmente acontece, há aí um dilema. Do filme Matrix, Neal também vivenciou este momento. Não fez um pacto, mas buscou o olhar de um outro, que o nomeasse como líder. Procurou no Oráculo a resposta se era “o escolhido”. Mas, como sabemos a pergunta não é respondida, uma vez que a resposta está sempre naquele que pergunta. É ele quem tem que decidir e assumir a responsabilidade de ser “o escolhido”. Nos dois casos, os personagens sofrem com o processo de se tornarem líderes, nenhum deles acorda de manhã e sai inspirando as pessoas, coordenando equipes e sendo ótimos comunicadores. Há um processo interno, um querer e assumir o que se quer, um pressentir e apostar na liderança como algo bom e ruim ao mesmo tempo e, ainda, uma suspeita de que este seja um caminho difícil, e que antes de tudo, é necessário estar em paz com esta escolha.

Francisco Ferrari
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