Fernanda Guimarães Salvador en home office, Comunicação e Jornalismo, Jornalistas Professora • Professora particular de Redação 23/5/2017 · 2 min de lectura · +100

Um vaqueiro cultivador de vontades

Um vaqueiro cultivador de vontades

Morador da comunidade rural de Cana Brava, Montes Claros, o ex-vaqueiro Jair dos Santos é dono de uma história de vida que faz constatar: o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Um homem que carrega, consigo, a força da vontade. É que a vontade, em sua vida, nasce da necessidade. E foi da necessidade de sustentar sua família – Jair é pai de 10 filhos – que nasceu o sonho de ser vaqueiro, carreiro, apontador de fazenda e tratorista

O que é necessário para ser um vaqueiro? Coragem? Um espírito disposto? Jair dos Santos, morador da comunidade de Cana Brava, zona rural de Montes Claros, traz a resposta: é preciso ter vontade. É que não foi apenas a busca em garantir o sustento de sua esposa e de seus 10 filhos que o levou à profissão. Além de vaqueiro, Jair já foi carreiro, apontador de fazenda, tratorista - ofícios buscados pela necessidade de garantir seu ganha-pão e pela vontade, pelo sonho de poder, um dia, exercer tais profissões. Ele explica: “Eu tinha um entusiasmo por esses trabalhos. Até o chapéu de vaqueiro eu uso, nunca deixei de usar ele não.”

O ex-vaqueiro de 60 anos e – ele ressalva - cinco meses, se aposentou como lavrador, ofício aprendido com seus avós, mas que nem sempre despertou seu ânimo. “Eu não gostava de trabalhar na terra, mexia porque tinha que fazer a despesa”, diz.

A aposentadoria, entretanto, não tirou o gosto pelo trabalho. “Deus me livre se não tivesse o serviço”, afirma. Ele é, também, presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de Cana Brava. Mas esse ânimo pela labuta tem outro motivo: uma ameaça de perder os movimentos das pernas fez com que Jair prometesse a Deus nunca negar trabalhar, caso ficasse curado. “Se eu melhorasse, não negaria nenhum tipo de serviço a ninguém, estaria disposto a prestar favor a quem pedisse”, conta.

Ele foi tratorista, carreiro e apontador de fazenda não apenas pela vontade de realizar tais ofícios, mas também por outras motivações. “Para mim foi bom porque eu tinha mais descanso e me pagavam melhor”, explica. Já sobre o sonho que tinha de ser vaqueiro, ele justifica: “Toda a vida eu gostei de movimentar na natureza. E o gado é uma coisa sagrada. Dizem que o gado é bruto, mas é porque ele não é batizado, não é cristão, só que é entendido. A natureza é uma coisa muito obediente, o gado também é”.

Outro sonho que realizou em sua vida e, segundo ele, o melhor, foi a possibilidade de construir uma família. Casado há 40 anos com Maria de Jesus dos Santos, 57 anos, ele conta: “Eu sempre quis ter filhos e alguém que olhasse por mim. Não queria ficar sozinho no mundo, feito passarinho”.

A vida no sertão: o convívio com as necessidades e a realização das vontades

A rotina na zona rural, segundo o ex-vaqueiro, não apresenta muitas novidades, não há muito movimento. Mas Jair não troca sua roça pela vida na cidade. “Eu gosto desse sertão velho aqui. Às vezes dá uma paradeira, uma sem-graceira, mas aqui tem o sossego. Eu não saio daqui não”.

Nos ofícios que exerceu por gosto e necessidade, ele aprendeu e ensinou. Passou a perceber “as conseqüências do mundo”. Ele diz: “A gente tem saber ser vivedor, saber conviver com as pessoas. Uma coisa, pondera Jair, é ser bajulador, outra é compreender que está sempre em débito com a vida: “Eu não sou puxa-saco. Eu sou é devedor”.

É preciso saber conviver com as pessoas, no pensar de Jair, mas o ofício de vaqueiro o levou a uma conclusão: não é difícil lidar com a animalidade do gado, complicada é a relação humana. “É melhor mexer com 100 bois do que com 30 pessoas. Eu prefiro. Gosto de mexer com o gado, com esses viventes. O dinheiro que vem dele é abençoado”, diz.

Jair, entretanto, ainda não conseguiu realizar uma vontade: construir uma casa. Pôde, entretanto, sem a segurança de uma vida confortável, mas seguro no cumprimento de seus deveres e na realização de suas vontades, vislumbrar um norte e construir uma história de vida afortunada, edificada na base da coragem. Foi assim que ele se fez mais do que um tratorista, carreiro, apontador de fazenda e vaqueiro, mas um homem realizador. “Tudo o que eu tinha vontade, eu consegui fazer, sofria muito, mas sofria com gosto. De tudo, eu fui alguém na vida. De tudo, eu fui alguma coisa”, diz.

Foi a coragem que fez de Jair um vaqueiro ou foi a profissão que fez dele um homem corajoso? Só mesmo sendo um vivedor, como ele é, e aprendendo a conviver com os bichos e pessoas de seu “sertão velho”, cavando a vontade em meio às necessidades para compreender a resposta. É que o sertanejo, ele conclui: “é aquele que enfrenta a vida de braços abertos, sem enxergar lá fora”.



#1 Seu Jair é de fato um exemplo de força de vontade. Obrigada pelo comentário.

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Prisciliano Fernandez 23/5/2017 · #1

Jair dos Santos, es tudo bondade e un exemplo de forca vontade. Parabems por a reflexao. (Desculpas por los erros gramaticais)

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