Hamilton Maranhão in Química industrial, Engenheiros e Técnicos, Engenharia e Indústria Engenheiro Master Dec 19, 2017 · 15 min read · 10.0K

Válvula fire-safe. O que ela realmente pode fazer por você

Válvula fire-safe. O que ela realmente pode fazer por você

Introdução

A válvula fire safe é uma válvula de bloqueio que exposta ao fogo, mantêm os vazamentos em valores normativos limitados através de sua sede, através do engaxetamento da haste e do seu corpo de forma que o fluído inflamável que escapou não seja suficiente para alimentar e piorar um incêndio.

A segurança tem se tornado cada vez mais, ao longo da história, uma parte da filosofia operacional de cada processo da indústria independente do setor de negócios. As motivações para o uso de uma válvula fire-safe são diversas como a proteção da vida das pessoas, a proteção dos equipamentos da planta, a proteção do meio ambiente e a redução do preço do seguro da planta. Quando se trata de válvulas fire-safe e ao que elas se propõem na diminuição das consequências de incêndios; é natural que em caso de dúvida de se usar válvulas para uso geral ou fire-safe em uma determinada aplicação com fluídos inflamáveis, que se opte pela segunda.

A válvula fire-safe deve ser adotada após uma análise de risco ou por recomendações específicas do cliente que adota normas claras e dedicadas ao tema ou por combinação desses. Não é incomum, entretanto, que se opte por uma válvula fire-safe apenas pelo fato de que a Especificação de Tubulação de um determinado projeto solicite isso ou só porque o fluído é inflamável. Vamos pontuar ainda que a válvula é:

- Uma solução de engenharia que demanda HH especializado para sua seleção e especificação;

- Que a mesma surge dentro de um projeto multidisciplinar com o HH sempre enxuto e;

- Um item de controle e/ou segurança que se bem especificado, diminuirá as consequências de um eventual sinistro;

Diante de tal cenário é compreensível que a discussão sobre a necessidade de uma determinada válvula ser fire-safe ou não seja deixada para segundo plano. Decidir automaticamente em utilizar uma válvula fire safe e manter o foco no cronograma de projeto, preservando parte dos custos é de fato uma solução sempre tentadora. Mas o cliente final procura valor agregado. O objetivo então deste é artigo é mostrar quais são de fato os valores agregados de uma válvula fire- safe e suas limitações. Também é objetivo deste artigo mostrar a importância das normas que definem os requisitos de performance das válvulas fire-safe. Após ler esse artigo você será capaz de responder as seguintes perguntas:

- O que é uma válvula fire-tested?

- O que é uma válvula fire-safe?

- Quais são as principais normas que determinam requisitos e procedimentos de testes para aprovar uma série de válvulas como fire-safe?

- Quais são os requisitos mínimos das válvulas que são testadas sob fogo?

- Quais são os aspectos construtivos de uma válvula fire-safe?

-Quais as limitações de uma válvula fire-safe?

- Quem deve e quando se deve selecionar uma válvula fire-safe ao invés de uma válvula para uso geral?

Definição

Válvula Fire-Tested - Válvula testada a fogo

Válvula fire-tested (ou em português válvula testada a fogo) é uma válvula que foi enviada por um determinado fabricante a algum laboratório para sofrer o processo de queima e ser inspecionada de forma a se certificar se ela atende aos desempenhos requisitados de determinada norma de referência (como a API 607, ISO-10497 dentre outras) que visam em última análise, garantir que o vazamento do fluído inflamável através da sede, do corpo e do engaxetamento da haste não ultrapasse limites estabelecidos aumentando a gravidade das consequências durante um incêndio.

Válvula Fire Safe – Válvula a prova de fogo

A válvula fire-safe (ou em português válvula a prova de fogo) é uma válvula de uma linha de fabricação de um fornecedor que foi validada como tal após uma outra válvula dessa família ser queimada (a que foi testada a fogo) e ter passado em todos os requisitos da norma utilizada como referência. A válvula fire safe é a válvula que será vendida ao usuário final. A pergunta que fica é: Todas as válvulas de uma determinada série de fabricação que teve apenas uma válvula queimada estão automaticamente classificadas como fire-safe? A resposta é não. Existe ainda um range de qualificação que define quais outras válvulas também podem ser vendidas como fire-safe. Veremos esse assunto mais adiante.

Apesar da diferença, as terminologias fire-safe e fire-tested são usadas na prática sem distinção principalmente no processo de compra e venda. Além disso, essas definições não estão descritas nas normas que tratam desse tipo de válvula. A diferenciação apresentada neste artigo é uma sugestão e tem o objetivo de fazer com que o leitor compreenda melhor os processos de teste, certificação e aquisição da válvula.

Normas

Quando se classifica uma válvula como fire-safe é importante termos em mente que como toda classificação, é em função de uma referência que no caso das válvulas são as normas. Assim como vedação estanque, metal-metal, tight shut-off não querem dizer nada se não estiverem atreladas a norma que definiram os requisitos de testes e as classes; o mesmo ocorre com a válvula fire-safe.

Algumas das normas mais utilizadas para definir os procedimentos de teste e os requisitos de performance das válvulas fire-safe são:

·        API STD 607 - Fire Test for Quater-Turn Valves and Valves Equipped with Non-Metallic Seats – 2016

·        ISO-10497 - Testing of Valves - Fire Type Testing Requirements - 2010

·        API STD 6FA - Specification for Fire Test for Valves - 1999

·        BS 6755-2 - Testing of valves - Specification for fire type-testing requirements – 1987

 As normas para as válvulas fire-safe sofrem revisões periodicamente, mas seu certificado não tem data de validade e não fica obsoleto quando há uma nova revisão da norma. Cabe a engenharia do cliente definir se os desempenhos exigidos em norma são satisfatórios ou se é melhor adotar uma norma mais atualizada ou mesmo outra norma. Então se algum fornecedor ofertar uma válvula conforme API 607 de 2010 (sendo que a última revisão é a de 2016); está sim sendo ofertado uma válvula fire-safe. Isso é importante para garantir a viabilidade econômica do negócio fire-safe sob a ótica do fabricante de válvulas. Imagine que a certificação tivesse um prazo de validade e que novas válvulas precisassem ser queimadas para confirmar a capacidade fire-safe de uma série que já estava sendo vendida como tal? Seria dispendioso a manutenção dessa certificação.

Em contrapartida, também é importante ressaltar que adotar normas em suas últimas revisões sempre é uma boa prática de engenharia.

Podemos observar os pontos relevantes de cada norma na tabela 1 e como eles se diferenciam pouco entre si. Parece à primeira vista, haver um consenso do que se espera de uma válvula fire-safe. Há poucas décadas isso não era assim e muitos clientes criavam suas próprias normas. Uma válvula testada e aprovada sob as regras de uma norma poderia falhar diante de outra facilmente. O que muitos usuários finais geralmente fazem é escolher uma ou duas para seguir como padrão exigido para suas válvulas fire-safe.


Ainda há muita discussão sobre definições, aplicabilidade e desempenho das válvulas fire-safe. Alguns especialistas defendem o conceito de intrinsecamente fire-safe pelo simples fato da válvula possuir sede metal-metal e engaxetamento em grafite. Isso é no mínimo arriscado e certamente não é a melhor prática de engenharia uma vez que já são conhecidas normas que podem colocar literalmente válvulas em provas de fogo garantindo desempenhos mensuráveis.

Do que as normas tratam e o que tem que ser observado

Em primeiro lugar temos que delimitar o escopo da norma. Ela se refere exclusivamente as válvulas e não aos atuadores senão os manuais que constituem o conjunto mais simples que uma válvula pode formar. Para os atuadores há outras normas que serão citadas, mas não detalhadas neste artigo; e elas não deixam de ser importantes.

Nas normas principais mencionadas no item anterior; as válvulas são testadas fechadas para medir o quanto de fluído escapa pela sede para a jusante da válvula. Uma válvula fire-safe no momento do sinistro precisa estar ou ser levada para a posição de segurança e esta posição estar em conformidade com a posição em que sua equivalente foi testada. Novamente uma avaliação criteriosa de risco deverá verificar não apenas se a válvula deverá ser fire-safe ou não, mas se o atuador e os cabos que levam o comando de atuação para o atuador também necessitam de proteção passiva contra o incêndio caso a válvula precise ser atuada durante o incêndio.

Dois tipos de vazamentos são medidos durante os testes. O primeiro é através da sede e mede o quanto a válvula consegue manter seu desempenho em bloquear o fluído mesmo sob fogo. O segundo é o vazamento externo que mede o que escapa através do engaxetamento da haste mais o que escapa pelo corpo da válvula menos o que escapa pelas conexões com a tubulação.

As conexões da válvula a tubulação não são objetos das normas. Todo vazamento proveniente das conexões da válvula à tubulação que ocorre durante os testes não é contabilizado e ainda assim, pode estar sujeito a exposição ao fogo em caso de incêndio. Tão importante então quanto especificar a válvula correta; é também especificar as juntas apropriadas e a conexão correta verificando o padrão dos flanges, padrão do ressalto dos flanges e padrão do acabamento da face dos flanges. A montagem deve ser cuidadosa para garantir que as juntas estão de fato sendo “agarradas” entre os flanges. Os usuários finais optam sabiamente por excluir válvulas com conexão wafer da aplicação de válvula fire-safe. Para válvulas borboletas e gavetas as conexões flangeadas e lug são recomendadas.

O tempo de teste sob o fogo é limitado e considera que este tempo é suficiente para extinguir a maioria dos incêndios. É importante se entender então que a válvula fire safe é uma solução temporária durante o incêndio e que este último precisa ser debelado por um sistema de combate de incêndio disponível e eficiente. É recomendável que a válvula seja instalada em uma área que está coberta pelo sistema de combate a incêndio em um projeto brownfield ou um novo sistema de combate a incêndio projetado de acordo em um projeto greenfield. Veja na tabela 1 que os tempos de testes para cada norma ficam todos em torno de 30 minutos.

As pressões que são consideradas para os testes são realistas. O teste de baixa pressão simula condições que podemos encontrar em parques com tanques de armazenamento onde o shut-down de bombas de carregamento derrubaria os valores das maiores pressões a apenas a pressão hidrostática causada pelos fluídos ainda armazenados nos tanques. Já os testes de pressão alta são realizados com pressões de 75% da máxima pressão suportada pela sede da válvula o que poderia simular as condições de processo em diversas plantas industriais. Entretanto, a melhor premissa a ser adotada é sempre que todas as bombas da planta necessariamente já sofreram shut-down em resposta a detecção do incêndio o que despressurizaria a planta para diminuir as consequências.

Figura 1 - Válvula sendo testada a fogo


As normas também não definem a necessidade de que os testes sejam testemunhados por terceiros ou que exista um critério de amostragem para definir a representatividade de apenas uma válvula queimada poder certificar uma série de fabricação (dentro do range de qualificação é claro). E não é necessário trazer à tona a questão da idoneidade. Um fabricante de válvulas que possua o laboratório de testes poderá realizar testes em duas válvulas, três ou mais, não importa. Se todas as válvulas falharem e a seguinte passar, ele poderá vender aquela série de válvulas como fire-safe. Não são todos os fornecedores, mas boa parte já fornece certificados que foram homologados por órgãos terceiros como os já conhecidos TÜV Rheinland e Lloyd’s Register.

Projeto construtivo

O projeto construtivo de uma válvula fire-safe não é normatizado; ele é baseado nas soluções dos fabricantes de válvulas que desenvolveram seus projetos para conseguir atingir os requisitos de desempenho das normas fire-safe. As válvulas fire-safepossuem duas características construtivas principais que diferem das válvulas para uso geral. Uma é que o sistema de assentamento é formado por duas sedes; uma primária com material resiliente e uma secundária de material metálico. A segunda é um sistema de engaxetamento da haste normalmente composto de materiais que suporta temperaturas altas.

Projeto Construtivo - Sistema de sede dupla

Para entender a importância do projeto de válvula fire-safe contendo um sistema de sede dupla, primeiro é importante destacar dois modos de demanda de uma válvula fire- safe. A demanda operacional, onde a válvula será solicitada a abrir e fechar sob as condições previstas pela engenharia de processo e pelo usuário final e a demanda de emergência quando poderá ocorrer um incêndio na planta e a válvula estará sendo lambida pelo fogo e só depois resfriada pela água de combate a incêndio.

A válvula fire-safe normalmente possui duas sedes. Uma sede resiliente primária que ficará em contato com a esfera ou o disco (a depender do tipo construtivo da válvula: borboleta, esfera e etc.) durante a demanda operacional da planta industrial e uma sede metálica resistente ao calor do fogo e que deverá preservar a vedação da válvula para que o combustível fique isolado em determinada parte da planta em caso de incêndio.

A sede primária tem algumas funções importantes:

- Manter a integridade da sede secundária metálica para que em um eventual incêndio, ela consiga manter o vazamento máximo permitido através da válvula conforme exige as normas. Se a sede primária não fosse utilizada então a sede secundária metálica ficaria em contato direto constante com o plugue durante todas as demandas operacionais e sofreria um desgaste prematuro e quando ocorresse um incêndio, a vedação metálica já estaria comprometida. Seria necessária uma frequência bem maior de manutenção aumentando assim os custos e talvez inviabilizando a solução. Pode parecer estranho a primeira vista que uma sede resiliente tenha que proteger uma metálica sendo que essa segunda é muito mais resistente. Mas é preciso entender que a válvula que será testada, é retirada novinha da fábrica direto para o laboratório sem sofrer com as condições de processo da válvula que será instalada em campo de fato. Mesmo uma sede metálica pode sofrer desgastes.

- Diminuir o torque necessário para movimentar os internos, uma vez que a sede resiliente possui um coeficiente de atrito inferior a uma sede metálica o que leva então a uma menor demanda do atuador ou pode chegar até mesmo a especificação de um atuador menor ainda na fase de projeto.

- Garantir uma vedação estanque durante a demanda operacional da válvula o que não é possível com a vedação metal-metal na maioria das condições de processo. A propriedade elástica de uma sede resiliente permite que a vedação seja sem vazamentos. Para vedação metal-metal seria necessário superdimensionamento de atuadores e polimentos superficiais adicionais e provavelmente a taxa de vazamento ainda seria superior.

Figura 2 - Sistema de sede dupla - Cortesia Bray


Esse sistema de sede dupla possui uma desvantagem. O objetivo do teste é fazer com que a selagem da haste e da sede sejam submetidas ao calor extremo do fogo e que os requisitos de vazamento máximo permitidos dentro da norma sejam obedecidos. A válvula deverá ser totalmente envolta em chamas e o que se espera da sede resiliente é que ela se destrua por completo. Lembram-se do tempo de teste de 30 minutos com fogo atuando diretamente sobre a válvula a 750°C? Nem sempre o incêndio vai lamber a válvula desta forma. Um incêndio pode ter chamas que não consigam transferir calor suficiente para destruir a sede primária por completo deixando a mesma com diversas deformações, mas ainda assim se entrepondo entre o plugue e a sede metálica secundária. Essa situação fará com que a válvula permita a passagem de fluído de maneira significativa, quando o esperado é que não ocorresse isso.

Projeto Construtivo - Há uma nova solução para isso?

Figura 3 - Válvula Tri-excêntrica Vanessa 30000 - Cortesia Emerson Process


E se houvesse uma solução em que o plugue só estivesse em contato com a sede no momento do fechamento total sem produzir desgaste entre as partes, podendo assim ter apenas a sede metálica, sendo assim fire-safe e mantendo uma vedação sem vazamentos durante as demandas operacionais? Essa solução aparece na válvula borboleta tri-excêntrica. A tri-excentricidade permite que inicialmente o disco da válvula borboleta descole da sede para logo em seguida iniciar sua rotação sem tocar novamente na mesma. Isso prolonga muito mais a vedação da válvula mantendo também o torque baixo. A válvula borboleta tri-excêntrica tem se tornado cada vez mais popular e na aplicação de contenção de inventário onde a válvula é instalada como primeiro bloqueio entre o tanque de armazenamento e a tubulação de descarga; tem se tornado também uma boa prática de engenharia já que além de atender os requisitos fire-safe; essas válvulas se tornam economicamente atraentes para tubulações de grande diâmetro além de serem mais leves do que as tradicionais válvulas esferas.

Projeto Construtivo - Engaxetamento da haste

Para suportar às altas temperaturas das chamas, os fornecedores utilizam a grafite com fios de Inconel como material do sistema de engaxetamento da haste. Por enquanto é a opção de melhor custo benefício. Vale salientar que o grafite possui um coeficiente de atrito superior ao PTFE que é muito mais aplicado nessa função. Isso nos leva a concluir que o engaxetamento da haste de uma válvula fire-safe em comparação a uma de uso geral, também demanda um torque maior do atuador.

Por algum tempo, o engaxetamento a base de asbestos também era utilizado, pois tal material também é resistente ao fogo. Pesquisas mostraram, entretanto, que tal material está relacionado a algumas doenças sérias como câncer de pulmão, abestose e mesotelioma. Os clientes finais então aboliram o asbesto como material para o engaxetamento da haste da válvula e evidentemente para outras aplicações.

Projeto Construtivo - Dispositivo Anti-Estático

No que se trata da certificação fire-safe de uma válvula; ela é colocada como um elemento passivo que tem apenas que resistir ao fogo e assim, não se considera a possibilidade da própria válvula ser uma fonte de ignição e iniciadora do sinistro. O atrito entre a sede macia e o plugue metálico pode carregar o plugue e a haste da válvula com uma carga estática que ao se movimentar pode gerar faíscas. Na presença de gases inflamáveis isso pode gerar uma explosão. Para esses casos, algumas válvulas podem ser especificadas com o dispositivo anti-estático que tem como objetivo dar continuidade elétrica entre obturador, haste e o parafuso de aterramento no corpo da válvula permitindo assim descarregar a energia estática. Devemos lembrar claro que esse não é um requisito para que uma válvula seja qualificada como fire-safe, entretanto, o engenheiro responsável ainda assim deve avaliar a necessidade desse item para se manter a conformidade com a segurança do processo.








Figura 4 - Dispositivos anti-estáticos


Range de Qualificação

O range de qualificação são as características diferentes das válvulas fire-tested (a que foi queimada durante o teste) que irão pertencer ao grupo das válvulas fire-safe (que serão certificadas e comercializadas).

O range de qualificação definido pelas normas tem um papel fundamental que é a viabilidade econômica do negócio fire safe: Imagine que se para uma determinada válvula queimada de um fabricante, apenas outras válvulas idênticas aquela pudessem ser vendidas com o certificado Fire-Safe? Para vender outras válvulas conforme solicitado por um cliente, ele teria que queimar uma idêntica o que aumentaria o custo e o prazo vertiginosamente. Seria um péssimo investimento para o fabricante de válvulas e sempre uma opção cara e com um prazo extenso para o cronograma do empreendimento do cliente.

Cada norma tem o seu range de qualificação específico que podem envolver diâmetro nominal da válvula, classe de pressão, materiais do corpo, internos e parafusos. Normalmente uma válvula testada a fogo de um diâmetro X qualifica outras válvulas para serem vendidas como fire-safe de diâmetros de até 2X. Válvulas com classe de pressão de 150# qualificam outras de até 600# e assim por diante.

Na aquisição da válvula o engenheiro deverá verificar se o certificado apresentado contempla em função da válvula testada se ela está dentro do range de qualificação. Exemplo: Se o certificado define que uma válvula da série X de um fabricante Y com 2” de diâmetro, 150# de classe de pressão, foi aprovada como fire-safe de acordo com a ISO-10497 e o que você está adquirindo é uma válvula de 4” com classe de pressão de 300# então este certificado é válido para sua válvula. É claro que existe a obrigação do fornecedor de entregar a documentação (especialmente certificados) conforme o produto que está sendo vendido. Mas também é de responsabilidade do engenheiro de instrumentação realizar o Parecer Técnico de propostas técnicas e a ADF (Análise dos Desenhos do Fornecedor) como etapas do projeto.

Na prática então, não se compra válvula fire-tested. Essas válvulas são queimadas para validar um range de válvulas como fire-safe. As normas possuem tabelas que definem o range de validação das válvulas em função de qual válvula será queimada.

Relembrando que essas denominações não estão definidas nas normas conforme descrito anteriormente. Elas foram propostas e colocadas nesse artigo desta maneira para que se pudesse diferenciar o processo de teste e certificação da aquisição das válvulas certificadas.

Quando usar uma válvula fire-safe

Válvulas fire-safe devem ser escolhidas em função de uma análise de segurança bem fundamentada ou por normas claras do cliente que tenham o propósito de definir exatamente a necessidade dessa utilização. Um exemplo claro deste tipo de norma é a da Petrobras N-2546B - Critérios para Utilização de Válvulas Esfera Testada a Fogo (“Fire Tested Type”). O objetivo dela é exclusivo para definir quando uma válvula fire-safe deve ser utilizada. Outro ponto claro desta norma é que não há uma generalização ou simplificação; em todas as opções colocadas pela norma, fica evidente a preocupação de se isolar uma grande quantidade de fluído inflamável de um possível incêndio.

As normas ou análises de segurança precisam responder algumas das perguntas abaixo para decidir se a válvula fire-safe deve ou não ser usada:

- Existe de fato o perigo da válvula estar em algum momento exposta ao fogo?

 Essa é a primeira pergunta que se respondida positivamente leva a real necessidade de se avaliar o uso de válvulas fire-safe. Sem exposição ao fogo, a válvula fire-safe perde seu sentido e não agrega nenhum valor em termos operacionais nem de segurança.

- Está claro que a contenção do produto no local onde a válvula foi instalada aumenta as chances de evitar um piora em uma situação de sinistro de incêndio?

Esse é o objetivo de uma válvula fire-safe. Temos como exemplo Esferas de armazenamento de GLP e grandes tanques de armazenamento de combustíveis. Instalar válvulas fire-safe como as primeiras válvulas a partir do costado destes equipamentos vai funcionar como uma espécie de contenção de inventário.

- Há o risco de que um vazamento de produto inflamável pela haste do castelo de fato alimente um incêndio prolongando-o ou tornando-o mais perigoso?

Se a válvula não será utilizada para bloquear produtos inflamáveis ao ser atacada externamente pelo fogo e também não pode oferecer riscos de alimentar um incêndio vazando fluído para o seu exterior; não há porque utilizar uma válvula fire-safe no lugar de uma para uso geral. Este é o segundo objetivo principal de uma válvula fire-safe.

Uma limitação clara como vimos anteriormente é o fato das normas para válvulas fire-safe não tratarem sobre os atuadores. Uma série de perguntas extremamente importantes não serão respondidas pelo simples fato de se estar comprando uma válvula fire-safe.

 1- A válvula precisa ser atuada em caso de incêndio? Ou seja; há a possibilidade de que a válvula possa estar fora da sua posição de falha segura e precise ser movimentada durante a ocorrência do incêndio?

2- A válvula estará acessível para ser atuada localmente levando em conta os pontos possíveis de incêndio, para onde ele pode se espalhar e a área de irradiação do calor proveniente das chamas?

3- A válvula pode ser atuada manualmente em tempo hábil para evitar a piora do sinistro e antes que se torne inacessível?

 Uma combinação de respostas 1- SIM, 2-NÃO, 3-NÃO levaria a necessidade de que a válvula precisasse ser atuada remotamente. Essa atuação só poderá ser garantida se atuador e toda a infraestrutura de cabos possa permanecer integra durante o tempo necessário para levar a válvula para a posição de segurança durante o incêndio.

 Algumas soluções como pintura intumescente para atuadores e envelopamento de bandejas compões uma parte do leque de opções de proteções passivas contra incêndios que se fariam necessárias em caso de atuação remota durante o incêndio.

 A seguir algumas normas que tratam desses sistemas de proteção: 

- API 2218 - Fireproofing Practices in Petroleum and Petrochemical Processing Plants

- UL 1709 - Standard for Rapid Rise Fire Tests of Protection Materials for Structural Steel

Essa sequência de perguntas está longe de ser uma análise completa. É apenas uma amostra do que deve ser feito com o objetivo de despertar o leitor para a importância desse tipo de análise e as limitações das válvulas fire-safe.

No mundo ideal dos projetos, os engenheiros de Processo e os Engenheiros de Segurança com o suporte da equipe de instrumentação ocasionalmente, devem fazer esse tipo de análise e definir se o correto é adotar válvula fire-safe e/ou proteção passiva e em quais itens. Esse resultado deve sair de uma análise de riscos de processo (PHA – Process Hazards Analysis) através de estratégias como HAZOP, HAZID, LOPA e etc.

A válvula fire-safe faz parte então de uma estratégia de segurança mais ampla de isolamento dos combustíveis de fontes de ignição como o incêndio e assim dentro de um gráfico de probabilidade x consequências; as válvulas fire-safe estão agindo na diminuição no eixo das consequências. Performance de válvulas fire-safe só fazem sentido em um cenário de incêndio já iniciado e que podem atacar a válvula em si. Elas não diminuem a probabilidade de início de um incêndio mais do que uma válvula de uso geral.


Não é apenas porque o fluído é inflamável, porque a SPEC de tubulação permite ou para simplificar o projeto que se deve usar válvulas fire-safe. Procedendo dessa maneira sempre haverá o risco de se estar comprando uma válvula fire-safe no lugar de uma para uso geral que trabalharia de maneira segura e até mais satisfatória. A válvula fire-safe tende a ser apenas um pouco mais cara que a válvula para uso geral, mas não necessariamente. Mas uma vez que os projetos estão com os orçamentos cada vez mais apertados é importante ter a certeza de que se está comprando valor agregado.

Hamilton Maranhão – Engenheiro de Instrumentação Industrial

Salvador, Dezembro de 2017

Bibliografia:

API STD 607 - Fire Test for Quater-Turn Valves and Valves Equipped with Non-Metallic Seats - 2010

API STD 6FA - Specification for Fire Test for Valves - 1999

BS 6755-2 - Testing of valves - Specification for fire type-testing requirements – 1987

ISO-10497 - Testing of Valves - Fire Type Testing Requirements - 2010

N-2546B - Critérios para Utilização de Válvulas Esfera Testada a Fogo (“Fire Tested Type”)

http://www.valtorc.com/valve-news/what-makes-a-valve-fire-safe-1 visitado em 9/11/2017

http://www.valtorc.com/valve-news/an-introduction-to-fire-safe-valves visitado em 9/11/2017

http://www.sigmatechconsulting.com/arttechpaper/FireSafeValves21990.pdf visitado em 30/11/2017

http://www.globalspec.com/reference/13637/179909/chapter-10-22-control-valve-features-fire-safe-treatment visitado em 02/12/2017

https://www.flowserve.com/sites/default/files/2016-07/ARAFL0001-W-FireSafe_1.pdfvisitado em 17/12/2017