O desafio do posicionamento artístico: Seu Jorge, 2012

O desafio do posicionamento artístico: Seu Jorge, 2012Pra encerrar essa série de textos em que comento a importância do posicionamento artístico pra um músico, quero falar hoje sobre um episódio ocorrido aqui no Rio de Janeiro há quatro anos: as vaias que Seu Jorge recebeu de alguns de seus próprios fãs durante um show na Fundição Progresso ao recitar versos de “Negro Drama”, dos Racionais MC’s.

A história foi bem notória e gerou muita polêmica nas redes sociais, a maior parte com comentários de condenação ao comportamento do público. O próprio Seu Jorge deu uma entrevista muito interessante pouco depois, dizendo: “na Lapa, só toco de novo em 2022”, quando então esse público vai ter sido (teoricamente) “renovado”.

Mas que público é esse que se incomoda tanto com alguns versos dos Racionais MC’s? Bom, quem conhece minimamente o grupo de rap paulistano sabe que o seu trabalho é voltado pra colocar o dedo na ferida da sociedade – atitude essa que não raro causa um belo desconforto na classe média. Os versos então recitados por Seu Jorge dizem tudo: “O drama da cadeia e favela/Túmulo, sangue,/Sirenes, choros e velas”.

E enquanto a proposta dos Racionais é escancaradamente de contestação, esse tipo de postura não costumar estar muito evidente no trabalho de Seu Jorge. Afinal, geralmente quem vai a um show seu o faz por sucessos como “Burguesinha” e “Mina do Condomínio”. Inclusive na ocasião ele divulgava seu então mais recente álbum: Músicas para Churrasco, Vol. 1. Um título bastante sugestivo, não?

Longe de mim querer criticar a postura de Seu Jorge – muito menos defender as vaias –, até porque se alguém tem moral pra recitar esses versos com propriedade é ele. Justo ele que, além de negro, foi morador de rua e enfrentou todo tipo de barreira social imaginável pra alcançar um sucesso mais que merecido. Espero de coração que a sua história vire um filme algum dia, e que esse filme ganhe todos os prêmios possíveis.

Mas não posso deixar de observar algo extremamente importante: querendo ou não, todo artista está constantemente educando o seu público pra vê-lo de certa maneira, e com isso atrai algumas pessoas sabendo que vai repelir muitas outras. Apesar de a trajetória pessoal de Seu Jorge ser um exemplo de superação, o seu trabalho até então não contemplava suficientemente essas questões.

É verdade que, logo após as vaias, a sua resposta foi (de acordo com Bruno Rico do blog Sentimento Crítico) muito contundente:

Essa música ‘negro drama’ tem muito significado pra mim, e nos meus shows ela vem seguida de ‘zé do caroço’. Vivemos em um país onde a maioria das pessoas luta pra caramba e permanece na miséria, um país onde a classe trabalhadora não é respeitada, e tudo isso tem que ser dito.

O desafio do posicionamento artístico: Seu Jorge, 2012Sem dúvida, foram palavras muito poderosas naquele momento. Mas talvez fossem ainda mais poderosas se tivessem sido ditas antes. Imagine, por exemplo, se os próprios Racionais, sem nenhum aviso, resolvessem cantar “Mina do Condomínio” em um show? Seria no mínimo engraçado, e provavelmente despertaria uma reação de indignação por parte do público.

Isso nos leva ao seguinte ponto: um show é um evento que deve comportar, sim, diferentes momentos. Mas é importante que o músico saiba “preparar o terreno” antes, pra que as coisas não pareçam assim tão aleatórias – a não ser que a intenção seja chocar mesmo (o que também é válido, diga-se passagem).

De qualquer maneira, é sempre bom ressaltar que qualquer atitude de um músico (dentro ou fora de um palco) é muito mais poderosa quando se conecta a um propósito claramente definido. E esse propósito vem, acima de tudo, de um comprometimento em desenvolver uma visão sobre o que se quer expressar. Afinal, é isso que se entende como posicionamento artístico.


Henri Galvão 7/11/2016 · #2

#1 Sim, foi uma atitude triste. E, infelizmente (como o próprio Seu Jorge comenta na mesma entrevista), isso não é bem algo surpreendente.

+1 +1
Tifany Rodio 7/11/2016 · #1

Concordo que talvez a reação do público tenha sido esta justamente por ter sido "pego de surpresa". Seu Jorge nunca militou abertamente, e talvez muita gente não saiba de sua relação com a causa e - por no curtir o estilo do Racionais - estranhou esta "interferência" durante o show. Ainda assim, os que vaiaram não parecem ter qualquer empatia com a realidade de tantos brasileiros. Um abraço.

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