Heraldo Tovani en Antropologia, Educación y Formación, Historia Professor 11/9/2017 · 3 min de lectura · +700

Pobres X Ricos - A histórica luta cotidiana do brasileiro

Pobres X Ricos - A histórica luta cotidiana do brasileiro


O Brasil sempre foi dividido.

Divido por duas classes que se excluíram mutuamente.

Quanto mais o rico voltou as costas ao Brasil, mais o pobre se aprofundou nas entranhas do país.

Desde o Pau Brasil - negociado por ricos nobres portugueses, extraído por índios enganados e escravizados - as finalidades eram o enriquecimento dos ricos daqui e de Portugal e a exploração do Brasil. Assim também com o açúcar, fabricado por braços escravos, que enriquecia mais ao já rico senhor de engenho, sempre com os olhos voltados para mar, para a exportação à Europa. O mesmo com o tabaco, a borracha e o abundante ouro das Minas Gerais. Riquezas que saíam ao custo da miséria, que ficava.

Mesmo a Independência do Brasil foi feita sem o empenho dos ricos que, de fato, preferiam não a independência, mas um Reino Unido, chefiado por Portugal.

A República, proclamada em 1889, foi mais um ato de vingança contra a abolição da escravidão que um projeto de país. Projeto esse que, na verdade, nunca existiu na mentalidade vassala da classe rica brasileira.

Só em 1930, com o movimento político militar de Getúlio Vargas é que foi esboçado um projeto de país, tendo em vista a industrialização, com a oposição dos ricos das oligarquias agrárias. Oposição intensa e encarniçada, que desembocou no golpe do Estado Novo.

O rico do Brasil, nesse período, debatia a vergonha que sentia de ser brasileiro, mestiço e feio. A intelectualidade servil aos ricos adotou o pensamento eugênico que pregava que éramos subdesenvolvidos e atrasados pela infelicidade de termos o sangue degradado pela miscigenação com o índio e o negro e propunham que o branco europeu nos salvasse copulando com nossas mulheres, para gerar uma raça branca e superior.

Sempre de costas para o país, os ricos do Brasil procuravam se aliar subservientes primeiro a Portugal, depois à França, depois à Inglaterra, chegaram a namorar a Alemanha nazista e, por fim, se renderam ao Tio Sam, incapazes de virar o dorso e encarar seu próprio país.

A farsa maior foi, recentemente, vestirem-se em camisetas amarelas e gritarem em público seu amor patriótico. Hipócritas!

Vencedores do golpe que depôs Dilma Rousseff, hoje são incapazes de se indignar com a destruição do país. Berram, como cães raivosos, o discurso da modernidade do capitalismo financeiro. Não porque acreditam, mas porque é o discurso do rico, é o discurso que vem de fora, é chique, é importado.

Servis e sem uma gota de sangue nacional, os ricos hoje põem à venda as riquezas nacionais, em nome de um discurso comprado dos EUA. O prefeito de São Paulo, despudoradamente, chega a veicular anúncios comerciais em inglês, propagandeando a grande liquidação dos bens públicos do povo paulista.

Se, por um lado, os ricos amam seus referenciais estrangeiros, por outro desprezam os seus conterrâneos pobres. Se envergonham da brasilidade do pobre e de sua falta de reverência ao senhor estrangeiro. Ruborescidos de vergonha, eles criticam o pobre que não fala inglês, que brinca em demasia e demonstra alegria além do nível da etiqueta. Suas relações são de superioridade, autoridade e intimidação para com os mais pobres.

Assim, para o rico brasileiro, é lógico e moralmente aceitável que o comandante do batalhão de polícia (ROTA) fale tranquilamente que a abordagem ao rico e ao pobre é, naturalmente, diferenciada. Ou seja, truculenta com o pobre e servil com o rico. Podemos fazer inúmeras críticas a esse comandante, mas nunca o chamar de hipócrita.

No entanto, e aqui está toda a ironia da história, o Brasil é conhecido e respeitado e admirado no mundo todo pelo trabalho, produção e inventividade do pobre, nunca e nada do rico.

Sempre que se empreendeu no país um movimento de resgate dos valores de nossa terra, só o que apareceu foi o Brasil dos pobres.

Enquanto os ricos flanavam pelos museus de Paris, no Brasil se revelava a monumental obra de nosso barroco mineiro. E o pobre e defeituoso artista, o Aleijadinho, despontava na galeria dos grandes artistas da humanidade.

Enquanto os ricos copiavam as danças de salão europeias, nas ruas escuras da capital o maxixe mostrava a original sensualidade do povo brasileiro.

Enquanto os ricos, na Casa Grande, se fartavam nos banquetes com carnes nobres e bebidas importadas, os restos jogados fora compunham, na senzala, o mais típico prato da culinária brasileira, a feijoada.

Enquanto os ricos, orgulhosos de seus amigos ingleses, fechavam para si os clubes de football ou soccer, proibindo o acesso aos seus irmãos pobres, esses mesmos preteridos, com bolas de meia, nas vias públicas preparavam aqueles que fariam do futebol o mais potente esporte nacional. Com ódio descomunal, os ricos tiveram que assistir a um negro, pobre, da periferia da cidade de Santos ser coroado rei. Justamente naquele esporte que os ricos haviam proibido à ralé.

Enquanto os ricos preparavam sua polícia com cassetetes e armas de fogo para reprimir o negro e o pobre, a resistência fez surgir a capoeira, que se transformou na marca maior da cultura nacional.

Enquanto as emissoras de rádios dos ricos impunham a importada cultura operística para os cantores do país, como suprassumo do bom gosto e da finesse e, ao mesmo tempo, punha sua polícia para reprimir os vagabundos tocadores de violão, a resistência popular fez nascer o samba, nosso bem cultural mais rico e reconhecido no mundo inteiro.

A telenovela, produto de exportação da TV dos ricos, nada mais é do que a apropriação e adaptação para a tela dos espetáculos de circos das periferias pobres do país. Do circo, também, nasceu o nosso rico teatro popular.

A nossa mais original literatura é o cordel, do nordeste pobre do Brasil.

O pobre fez o Brasil rico.

O rico fez o Brasil pobre.

A democracia não interessa aos ricos, pois sabem que se forem postos em igualdade com os pobres serão superados em todas as esferas.

Por isso, não abrem mão do poder. Pela força das armas ou do dinheiro se apossam da repressão, compram a política, corrompem o judiciário e controlam a economia. Os pouquíssimos espaços democráticos que nossa história produziu foram os únicos em que o Brasil se afirmou frente ao mundo e provocou saltos enormes em nossa economia e na participação popular, como aconteceu nos breves espaços entre 1946 até 1964 e 1988 até 2016.

A democracia entre nós só perdurou em 46 dos 517 anos de nossa História oficial. Agora, mais uma vez, os ricos se encastelaram exclusivos no poder. Em consequência, mais uma vez estamos nos empobrecendo a todos. Nunca, porém, de forma tão acelerada e tão desavergonhada.

Em um ano promoveram um retrocesso de décadas nos direitos e garantias dos pobres. Estamos muito mais empobrecidos e desapoderados que há dois anos e sem perspectivas, e sem esperanças...

O que se revela à frente é um futuro de privação, pobreza e violência.

Tomar o poder em nossas mãos, parir a fórceps o nosso futuro é a única possibilidade que a conjuntura nos apresenta.

Nós, pobres, sabemos, podemos e queremos.

Sabemos fazer um país. Podemos empoderar nosso povo. Queremos tomar o que é nosso em nossas mãos.

O momento está chegando.