Heraldo Tovani en Antropologia, Professores e Educadores, Historia Professor 27/9/2017 · 5 min de lectura · +800

Uma leitura atual sobre a união das esquerdas: Opção ou obrigação?

Uma leitura atual sobre a união das esquerdas: Opção ou obrigação?

                                                                                          

- "Operários" de Tarsila do Amaral - 1933

                   Qualquer leitura minimamente coerente da realidade atual aponta para a necessidade urgente da união do campo das esquerdas do país.

                   Esquerda, aqui, é entendida como as forças democráticas, não necessariamente socialistas ou comunistas.

                   Não se trata de simplesmente manter ou consolidar uma posição partidária. Não se trata de ganhar, como se ganha uma partida de futebol. Trata-se de uma atuação de salvação nacional.

                   É necessário, é urgente construir uma posição forte, frente a força avassaladora que nos ameaça.

                   A direita está se fortalecendo e se articulando em torno de um discurso unitário, com associações atuantes e uma militância que, apesar de difusa, está prestes a se articular em torno de Jair Bolsonaro que, dado o seu ascenso nas pesquisas eleitorais, pode vir a consolidar um grupo expressivo junto à Câmara e Senado, câmaras estaduais, Forças Armadas, grupos populares conservadores e parte da imprensa.

                  É importante entender que Jair Bolsonaro não é uma força em si, ele não é um líder de massas, como foi Hitler, Mussolini, Perón ou Franco, ele é, de fato, caricato, falastrão e raso. Ninguém sabe com clareza qual é a sua proposta para a economia, para a saúde ou habitação, nem qual é, de fato, a sua ideologia política. Ele só esbraveja aquilo que o público conservador quer ouvir. Ele é como um símbolo que condensa tudo aquilo que vem sendo construído pela direita, desde que Lula foi eleito. Mas, desprezar a possibilidade real de seu crescimento eleitoral poderá se tornar um erro histórico monumental.

                  Desprezo semelhante ergueu Donald Trump à Casa Branca, nos EUA.

                  A atual onda conservadora de direita em nosso continente se formou a partir do golpe político em Honduras, em 2009, atingiu o Paraguai, em 2012 e o Brasil, em 2016, e agora ameaça fortemente a Venezuela e pode desestabilizar todo o Cone Sul. Vários indícios apontam fortemente para a possibilidade dessa onda conservadora ter sido orquestrada a partir de Washington e envolver bancos e instituições financeiras gigantes e poderosas corporações dos EUA, em conluio com a nossa tão desprezível elite nacional.

                   Não é, portanto, um fenômeno local, conjuntural e episódico que se resume em Michel Temer e os políticos apodrecidos que o sustentam.

                   No Brasil, podemos datar como marco inicial do avanço direitista as eleições do Congresso, em 2014. Não por acaso, essa eleição bateu a vergonhosa marca de “A mais cara da História do Brasil”, segundo a Revista Congresso em Foco, de 01/09/2014. Nesse ano, 25 mil candidatos torraram a impressionante cifra de R$ 71 bilhões. Montante suficiente para manter todas a estrutura do Congresso nacional, por 70 anos (Parlamentares, assessores e funcionários, carros e mordomias) ou, “custear por seis anos as 14 milhões de famílias (50 milhões de pessoas) que sobrevivem com recursos do programa Bolsa Família” (Congresso em Foco/2014).

                   Mais do que a denúncia desses números, é importante destacar que essas eleições tiveram financiamento privado, com farta distribuição de recursos pelas empresas e um militante empenho de instituições como CNI e FIESP, além de grupos como Vem Prá Rua e MBL, que foram denunciados de serem financiados, por meios nada republicanos, por partidos, institutos e fundações liberais.

                   Como resultado, tivemos a eleição do Congresso Nacional mais conservador, desde 1964. Dos 513 parlamentares eleitos para a Câmara dos Deputados, 375 eram de centro ou de direita (Valor Econômico – 05/01/2015).

                   Engrossou essa onda conservadora, uma parcela significativa de juízes e magistrados do nosso poder judiciário que aproximaram-se, além do que seria conveniente, do sistema judiciário dos EUA, e de lá trouxeram teorias e práticas que ameaçam frontalmente o que ainda resta de nossa enfraquecida democracia. Há hoje uma assustadora onda fundamentalista cristã ditando as condutas de diversos juízes e promotores. Atropelam direitos fundamentais, censuram exposições de arte, peças teatrais e, até, ditam procedimentos de tratamentos psicanalíticos, entendendo ser possível uma ilusória cura gay.

                   Na esteira de tudo isso, vem ganhando terreno pautas de lamentável anacronismo e, muitas delas, de inspiração claramente fascista, como a liberação do porte de armas de fogo, a maioridade penal, Cura Gay, proibição do funk, escola sem partido além de diversos retrocessos em garantias constitucionais de pobres e trabalhadores. Ao mesmo tempo, pautas progressistas são engavetadas.

                   Na sociedade, por uma completa alienação política e ausência absoluta de debates e fruição de ideias, o sectarismo ganha corpo e vemos crescer o ódio contra religiões tradicionais de matriz africanas, contra homossexuais e a intolerância ao diferente. Chegamos a ver ódio dirigido a ícones enormes de nossa cultura. Hostilizam Paulo Freire, agridem Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Wagner Moura e tantos outros. General do exército já se sente confortável para chantagear o judiciário, com ameaça de golpe militar. Olavo de Carvalho ganha espaço, como guru da direita e a TFP começa a engomar seus estandartes.

                   Após o golpe de 2016, a direita envergonhada, que estava reclusa desde a redemocratização dos anos 80, sentiu-se empoderada e retomou práticas que eram comuns durante o regime militar (1964-1985). Os ruralistas, força política expressiva, desde as últimas eleições, avançam suas plantações e pastos impunemente sobre reservas ambientais, áreas de proteção e terras indígenas. As madeireiras voltam ao assalto de nossas florestas, as polícias militares dos estados intensificam sua rotineira truculência e chegam declarar publicamente seu tratamento diferenciado para ricos e pobres. As elites agrárias, financeiras, comerciais e industriais avançam sobre o Congresso Nacional e cobram descaradamente seus investimentos nas eleições de parlamentares e fazem aprovar verdadeiros roubos aos cofres públicos, com a aprovação de leis, MPs e refins que enchem seus bolsos fartamente.

                   As emissoras de TV, rádios, jornais e revistas da grande imprensa sabotam as notícias, manipulam a informação e constroem um discurso de resignação e apatia.

                   O cenário é de temor.

                   Enquanto isso, nós, o povo, estamos encurralados, desmobilizados e reféns de toda essa estrutura montada. Pior, estamos vulneráveis, ou, se a História de 1964 nos ensinou alguma coisa, estaremos, em breve, sujeitos a toda sorte de abusos e repressão.

                   Nesse momento, somente uma grande aliança pela restituição e radicalização da democracia pode fazer frente a essa onda gigantesca que vem na intenção de nos afogar a todos.

                    Não entender essa premissa básica é compactuar com a direita, é fortalecê-la.

                    Não podemos admitir que Lula e o PT, Ciro Gomes e o PDT, PSOL, REDE, Roberto Requião e os poucos remanescentes dignos do PMDB, centrais sindicais, OAB, ABI, CNBB, Intelectualidade das universidades federais entre tantos outros institutos, personalidades, profissionais das mídias alternativas não se unam, em um momento tão ameaçador para todos nós.

                    Os projetos pessoais, principalmente de Lula e Ciro Gomes, estão sendo colocados acima de suas responsabilidades históricas. Não podemos admitir que vossas vaidades nos coloque a todos numa posição enfraquecida e vulnerável, frente a horda avassaladora que se anuncia.

                    Luiz Carlos Prestes, logo após o golpe militar de 1964, percebeu seu erro histórico de acreditar que “não somos o poder, mas estamos no poder”, como anunciara, pouco antes, por sua aproximação ao governo João Goulart. Errou redondamente!

                    Acreditar, hoje, unicamente nas pesquisas eleitorais e na incerta garantia de que haverá eleições em 2018, é incorrer no mesmo erro de Prestes. É incorrer no erro de acreditar que nossa doente democracia suportará as investidas dos golpistas.

                    E, ainda, olhar os números positivos das pesquisas eleitorais e não olhar para o conjunto do bloco histórico político que se forma é de uma infantilidade política inadmissível.

                    Se, por um lado, é notável a capacidade de sobrevida de Lula, que continua avançando nas pesquisas de opinião, mesmo tendo sobre ele todas as forças tarefas (leia-se: forças enormes com tarefas pré-definidas), por outro lado, devemos entender todos os dados e números revelados pelas pesquisas e pela realidade concreta. A rejeição a Lula é maior que as intenções de voto. Abaixo de Lula, nas pesquisas, vem Bolsonaro, Dória, Alckmim, que tendem a crescer com as campanhas e polarizar os seus projetos neoliberais e/ou fascistas. (Ou, caso não emplaquem, inventam outro candito, Meireles, por exemplo, já está saindo do laboratório da direita, pronto para conciliar os descontentes). Todo o mercado financeiro é contrário a Lula. Toda a grande imprensa, também. A conjuntura internacional nunca foi tão desfavorável. Há um projeto continental de reforço do neoliberalismo, na América Latina.

                    Há muito mais que as urnas para Lula enfrentar.

                    Nesse momento, não podemos nos dar ao luxo de ser ingênuos. No entanto, há uma tendência a entender o golpe de 2016 como uma ruptura conjuntural que, com a eleição de Lula, será interrompida e a proposta de viés social e democrática petista continuará, a partir daí, como se nada tivesse acontecido. Essa visão ingênua não se sustenta.

                    Veja que a contradição desse discuso é enorme. Se o nosso discurso vem sendo o de insistir que o que tirou Dilma Rousseff do governo foi um golpe, não deveríamos, nós também, acreditarmos nisso? Ora, se houve um golpe, orquestrado para impor uma determinada proposta política e econômica, devemos acreditar, junto com isso, que em 2018 o golpe vai acabar? Se acabar, nosso discurso estará errado, e deveremos aceitar que Dilma Rousseff, por improbidade, foi retirada constitucionalmente do cargo. Ou então estaremos vivendo o único caso na história em que um golpe de Estado foi dado para durar apenas dois anos. Se, por outro lado, foi de fato um golpe, as eleições estão, dentro dessa lógica, ameaçadas, e não poderíamos acreditar nessa possibilidade.

                     Assim, dentro de nossa própria lógica, as eleições de 2018 estão, desde o golpe, ameaçadas. Como para o retorno da ordem democrática é imprescindível eleições diretas, precisamos nos convencer que tais eleições só chegarão se tivermos força para fazer com que ela chegue, na marra, com força e só com a união das forças progressistas do país.

                     Essa união, acredito, começará quando propormos o início da discussão do que foi o período de 13 anos em que as forças de esquerda estiveram no governo.

                     Se, por um lado, é verdade que houve um salto de qualidade nas áreas sociais, como nunca em nossa história. Se houve distribuição de renda, diminuição da pobreza, saltos incríveis na educação, poder de compra do salário, inclusão das áreas mais pobres do país no orçamento, política externa destacada e vários outros pontos que colocaram o Brasil em relevo no mundo todo, por outro lado, é também verdade que boa parte de tudo o que foi construído em 13 anos esfacelou-se em apenas um ano. Isso demonstra, se não um erro, pelo menos uma fraqueza, que precisa ser analisada. Precisamos entender porque a política de alianças do PT foi tão catastrófica, a educação política da população, inexistente. Por que não houve uma política de criação de uma imprensa livre? Por que a desindustrialização não foi estancada? Por que não se construiu uma hegemonia que fosse capaz de impedir o golpe?

                     Está na hora, sim, de fazermos a nossa autocrítica. Aliás, já passou da hora!

                     Será na análise do que foi feito, dos acertos e erros, que poderemos construir uma proposta que avance e que tenha força de atração política e popular.

                     A parcela da população que não se rendeu ao discurso de ódio da direita precisa de arsenal teórico e propositivo que lance luz para munir o debate e que aponte para um projeto de superação do momento atual. Precisamos reforçar valores que nos são caros, como o respeito à dignidade humana, a solidariedade como princípio de ação política, o empoderamento dos mais pobres e desassistidos da sociedade, a valorização de seus saberes e de sua cultura, o respeito às diferenças e o avanço da democracia. Nenhuma força democrática sozinha tem hoje força, discernimento e capacidade teórica suficientes para compor essa proposta. Precisamos de união.

                    Lembremos de nosso passado. Os erros das forças democráticas em nossa história se sucederam, uns após outros, em uma quantidade muito superior ao que seria aceitável. Chega de errar!

                    A História de nossa República confunde-se com a história de derrotas das forças democráticas. É uma história de erros.

                    As responsabilidades postas nas mãos dos partidos organizados do campo democrático – e só a eles, pois os movimentos populares estão desarticulados e vulneráveis - é de importância enorme e vai para os anais da história ou como aqueles que marcaram o ponto de virada no jogo que derrotou os golpistas ou constarão como mais uma geração democrática que, incapaz de aprender com o passado, rechearam com mais um ingrediente a história de erros dos democratas brasileiros.