Rowan de Araujo in PROFISSIONAIS EM ADMINISTRAÇÃO, Profissionais Administrativos, Recursos Humanos Conselho de Mineração e Siderurgia da Associação Comercial e Empresarial de Minas Gerais 24/8/2019 · 25 min read · 3.9K

CVRD-VALE: parte da grande história de Liderança e Coragem: "A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras". (Aristóteles)

CVRD-VALE: parte  da grande história de Liderança e Coragem: "A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras". (Aristóteles)

 Rowan Pedro de Araújo, é membro do Conselho de Mineração e Siderurgia da Acminas - Associação Comercial e Empresarial de Minas - Membro do Conselho de Administração da Costa & Faber - Agronegócio,  Diretor de Administração da RA-Participações, Serviços e Exportações 


A liderança de Eliezer Batista,  sua coragem e de suas equipes da CVRD-VALE. O crescimento na força logística e operações sistêmicas,  base do desenvolvimento das exportações do minério de ferro, com  alta capacidade, dessa logística diferenciada em grandeza e sincronismo da gestão da Geologia - Operação de Mina-Tratamento /Beneficiamento de Minério de Ferro-Ferrovia-Porto-Navegação. 


O profissionalismo das grandes equipes que venceram os grandes desafios internacionais e transformaram a empresa na Gigante do Minério de Ferro. 

"Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer." (Frank Lloyd Wrigh)

A mina de Itabira ia bem e inspirava confiança para avançar. A ferrovia Vitória Minas idem e os navios  começavam a cruzar mares cada vez mais com "minério de ferro made in VALE" com destino ao Japão. As equipes da VALE trabalhavam com resultados extraordinários e impulsionavam as novas  ideias de Eliezer. 

Ele então,  mirou o mercado de minério de ferro para Europa, sempre enxergando atrás montanhas as oportunidades que os outros não enxergavam e precedidas de muita coragem e arrojo. "Eliezer é  uma máquina de pensar e fazer tudo rápido, com a mais absoluta coragem e segurança" (Pitella Junior - Ex Diretor da VALE)

Eliezer tinha carta branca, na CVRD-VALE, onde mandava, resolvia e decidia com a sua coragem, pensamento sistêmico-holístico e uma  condição diferenciada, calcada na liderança respeitada de um verdadeiro mestre,  engenheiro dos engenheiros da logística, mas dentro de um homem simples, líder e trabalhador de uma visão extraordinária de grandes estratégias de negócios. Sua equipe de engenharia e geólogos, era a melhor do Brasil, em termos da geologia do minério de ferro e engenharia correlata na operação e produção na mineração, tratamento, beneficiamento de minério de ferro e o sistema de   logística mina -  ferrovia- porto- navegação, que foi todo imaginado por ele à frente da VALE. Deste mix de operações eficientes formou-se o  know how- VALE  destacado e reconhecido mundialmente, em todos os sentidos, inclusive sobre competência internacional e  construção da marca forte CVRD, acompanhada pela  grande reputação e  seu respeito global. O capital de marca da empresa se deve à este inicio brilhante de conquistas da empresa. 

A CVRD era aplaudida globalmente, inclusive pelos concorrentes. Era vista com alto grau de seriedade, admiração, postura social, relacionamento com as comunidades no eixo de suas operações. Falo também da opinião da vizinhança, fornecedores, valorização das pessoas, segurança, ambiente de trabalho, harmonia e o orgulho das pessoas  trabalharem na CVRD-VALE com uma convivência espetacular e positiva com todas as partes interessadas, os  stakholders como dizem hoje. 

As  decisões, o empreendedorismo focalizados de Eliezer em projetos arrojados, já tinham  desagradado muita gente, ao lutar  para engrandecer e exponenciar a VALE. Falo em abrir o mercado de minério de ferro para o Japão,  contra os interesses dos EUA e Europa, que tinham receio do Japão voltar a investir na indústria bélica com as suas siderúrgicas. Em função disso, esse  receio dos EUA e Europa vetaram a  venda minério de ferro para o Japão, que precisava comprar minério de ferro,  já a VALE vender minério de ferro. 

Eliezer dizia: "enxerguei a única oportunidade de fazermos a VALE crescer naquele momento, e sair do nosso raquitismo melhorado  para o gigantismo da VALE, o seu verdadeiro lugar que queríamos. Trabalhamos muito, contrariamos grandes interesses, mas vencemos."

 Esta posição dos EUA e Europa de não negociar minérios com o Japão era um preconceito sem fundamento na época, segundo Eliezer que assegurou para o governo brasileiro  que o povo japonês estava na realidade  querendo apenas se recuperar da terrível derrota da guerra, não tinham nada. Somente a cultura, determinação e vontade, seguida da mais absoluta prioridade para trabalhar, reerguer o Japão e melhorar a qualidade de vida e a  educação das suas crianças, visando um futuro melhor da nação. Eliezer em cima dessa  condição, garantiu a venda de minério de ferro da CVRD-VALE ao Japão corajosamente, nesse clima dos EUA e Europa, dizer não, a venda de minério ao Japão. Essa negativa se alastrava e distanciava o Japão de seus nobres objetivos.

Eliezer estava certíssimo. Confiou na ética e seriedade do Japão e não mediu esforços para ajudá-los, através de  grandes parcerias. O crescimento da CVRD-VALE se deve a essa confiança mútua,  construída com o Japão, país exemplar em todos os sentidos com um povo maravilhoso, disciplinado, ético e trabalhador. Hoje qualquer país do mundo quer exportar, fazer negócios com o  Japão e seguir o seu exemplo de educação. Os laços culturais com o Japão formam  um orgulho imensurável nos países que pensam na frente; e têm liderança de vanguarda.

Eliezer queria engrandecer ainda mais a empresa,  elevar  a marca  CVRD-VALE a cada dia que se passava  e vislumbrava, ou obstinava  colocar o minério da VALE na Europa socialista e depois na capitalista. Mas  para isso,  ele tinha como meio, na época aproximar-se  do General Tito da Iugoslávia socialista, aliado da Rússia a inimiga número um dos EUA em plena Guerra Fria. Eliezer foi alertado em tom de ironia de que não sairia vivo da Iugoslávia, caso  fosse lá "mexer com o General Tito". 

A aproximação do Brasil com a Iugoslávia socialista, não  agradava aos EUA capitalista que mandava no mundo 100 vezes mais, do que manda da hoje.  Mas Eliezer teimou, "teimosia típica dos Pereiras de Nova Era, MG " sua terra natal, e meu sangue também", nós somos parentes. 

Eliezer com coragem  foi lá na Iugoslávia e se encontrou com o temido General Tito. Fizeram fortes acordos comerciais de compra e venda do minério de ferro da CVRD-VALE, em apenas uma reunião, sem demoras, indecisões, medo de fracasso ou   das famosas  burocracias, típicas das empresas estatais, e também de muitas empresas privadas, onde  muitos mandam, mas ninguém tem  coragem e autonomia para decidir, ou assumir e acabam  não resolvendo e decidindo nada!  A considerar que hoje, no século XXI o recurso mais escasso é o tempo de executivos e gerentes;  e este recurso está sendo muito desperdiçado. 

Estudos vêm apontando que as reuniões infrutíferas com perda de tempo já  estão elencadas entre as causas que mais consomem altos recursos. O custo da hora de CEOS/diretores e gerentes em reuniões podem implicar em participação de  dezenas deles. Isto  implica em soma de muitas horas, na semana, mês e ano. Muito dinheiro, as reuniões  devem ser produtivas.

As pessoas, mesmo com os recursos avançados de TI, reuniões por vídeo conferência , agenda eletrônica,etc. Se reúnem muito  mais; mas decidem muito pouco.

 Possuem tecnologia, mas não possuem coragem. Possuem organograma moderno, mas não possuem autonomia. Possuem MBA, mestrado e tudo da  boa educação formal, mas não decidem com segurança. Escolas não ensinam  decidir e trabalhar com complexidades. Escolas formam um excelente modelo mental,  habilidade de planejar, informações, tipologia de métodos, mas é  toda uma ambiência inclinada e embasada sob teorias, que dá direção, mas não dá sua assertividade. A escola, pós graduação, mestrado não dá liderança para  criar solução coletiva, resolução de problemas e melhoria contínua  na prática. Não forma o senso detalhado de  gestão das  pessoas, dos  processo, tecnologia, estratégias e coragem para fazer  mudanças. Não habilita da noite para o dia conhecer os riscos. 

E é isto,  que faz a coisa acontecer nas empresas com produtividade e eficiência alta. Funcionando bem, padrão benchmarking com os melhores indicadores. São iniciativas e gestão com este foco e práticas de 70% e 30% teorias, que faz a empresa andar. É  preciso experiência, talento. Vontade de ensinar, aprender e trabalhar em equipe, e muito, porque o trabalho nunca matou ninguém. Nada realiza sem trabalho e disciplina.  

As profissões do mundo inteiro, crescem  com aprendizado, experiência e prática. Vendo, vivendo e convivendo com a execução do processo in loco da atividade fim. Entendendo o modus operandi raiz e imitando os melhores líderes presidentes, diretores, gerentes, supervisores, técnicos e operários também. Os homens  corajosos, competentes e exemplos de saber fazer. 

Profissionais da pura execução  prática do que aprendem e ensinam. Estas relações dão a forma ao nosso ecossistema organizacional e cultura do negócio, ou seja,  o ambiente  do bom exemplo na dimensão  humana, social e profissional. 

A natural liderança, nesse ambiente organizacional, transmite valores, habilidade e qualidade de saber administrar, criar métodos, padrões, gerenciar pessoas, exercer alta liderança. Inovar produtivamente com ética, respeito às pessoas e ao meio ambiente. Apresentando ao mesmo tempo diferenciais de vanguarda, ou busca de uma administração humana, mas  competitiva. Precedida de visão sistêmica e holística, para que tenhamos ambientes colaborativos e coletivos avante para tingirmos metas e objetivos arrojados com sucesso.

As reuniões com Eliezer eram altamente produtivas, resolutivas e sem bla, bla, blás. Este tipo de líder,   o verdadeiro  homem da linha de frente e de postura avante,  que inspira a sua elevada liderança, confiança e segurança aos liderados,  já está ficando raro no Brasil e no mundo, faz um bom tempo. 

Cito homens de quilate de Eliezer Batista da CVRD-VALE, Antônio Ermírio de Moraes da Votorantim,  Akio Morita da Sony, que  eram iluminados de talento, visão sistêmica, inteligência, liderança, empreendedorismo e sobre tudo;  coragem para  ter  iniciativa e   acabativa invejável.  Eram professores de formar equipes fortes que venciam grandes desafios empresariais. Inovavam e realizavam como poucos grandes projetos com eficiência empresarial exemplar, o  que não vemos mais,  com intensidade nos dias atuais. 

Muitos  hoje em dia, ganham fama de competentes,  mas com o puro trabalho de marketeiros,  maquiagens de resultados. Holofotes de mídia paga. Sem transparência das operações dos negócios que lideram e controlam. Usam um  ambiente do processo  da artificialização de dados, resultados e ocultação de riscos operacionais graves, ou até mesmo a  falta de coragem para assumir  responsabilidade, reconhecer os erros. Mudar de postura e atitudes.   

Eliezer ainda disse para uma de suas irmãs que ia falar com o Gal Tito. Preocupada com a segurança dele com  ida ao encontro com o general socialista na Iugoslávia,   temido no mundo todo. Eliezer respondeu à sua irmã: "existem fábricas de preconceitos que não nos leva à nada,  só  atrapalham. O ocidente não está mais próximo do oriente. O nosso desenvolvimento está fragmentado por causa desses achismos, convicções e ideias preconceituosas contra os  povos e países que querem apenas trabalhar. A diferença de pensamento ou regime de governo, não podem se transformar em   barreira, muralha ou  camisa de força para aqueles que querem evoluir economicamente com as exportações e importações de matéria prima, via negócios bilaterais. Queremos é fazer as indústrias do mundo inteiro  funcionar, prosperar,  gerar emprego e renda." 

Contei esta história certa vez para o meu professor de Economia Industrial em 2002, já falecido Roberto Nunes Caldeira Brant, após eu ter lido livro de Administração de Empresas, a parte de Novos Princípios de Gerência e Direção de Empresas, autoria de Rogério Pfaltzgraff. O profesor Bant, me disse: "a economia cresce e  melhora a qualidade de vida e educação das pessoas. Veja que até as feiras medievais tiveram esta função, elas tinham esse objetivo, o de movimentar a economia já naquela época em um processo bilateral com escambo(troca, compensação, permuta de negócios, bens, mercadorias, etc. Por que   no século XX e XXI, ainda criam entraves de negócios? Só por que fulano diz, que não pode? Mas pode sim! Porque a visão deve ser ampla, coletiva e acima de opiniões e paradigmas que não funcionam mais. Temos que olhar para frente, o futuro e crescimento dos nossos negócios, de nossa nação e de outras também. Não importa de onde vem o capital, desde que seja e tenha origem honesta, correta e justa. Barão de Mauá disse coisa parecida no século  IXX "    

 Assim, Eliezer  trazia  da Iugoslávia o acerto e obtenção de novas divisas financeiras / econômicas para o caixa da CVRD-VALE e  o Brasil. Eliezer era inimigo das demoras, amarras, decisões lentas e da burocracia. Mesmo com a CVRD-VALE estatal, nada ficava engessado. Ele assumia  corajosamente um ambiente coletivo, colaborativo, democrático  e dinâmico com  a confiança mútua por autonomia e liberdade  para decidir participativamente. Exigia  praticidade para tratar dos negócios e tinha muita gente competente ao seu lado.  

 General Tito,  por sua vez, confiou  100% na CVRD-VALE e principalmente em Eliezer. O General com grande otimismo  construiu à  toque de caixa um porto na Iugoslávia para receber os navios trazendo  minério de ferro  e espalhar o produto "made in VALE"  para a Europa. A entrada do minério  na Europa, se iniciava  pela Áustria e Alemanha socialistas,  e dali  Eliezer não só incrementou, mas deixou também as operações da  VALE - CVRD  conhecidas na Europa. O minério da empresa idem  e isso foi uma  jogada de mestre. Criando esta  entrada inteligente do minério na Europa socialista. Foi corajoso ao extremo em fazer essa pareceria em prol do crescimento da CVRD-VALE. 

General Tito esteve no Brasil, e quem o acompanhou o tempo todo foi Eliezer, porque falava 8 idiomas, inclusive o russo, e este era o meio de comunicar com o Brasil e com o presidente Jango. 

Eliezer abriu o mercado do minério de ferro nesta modelagem e aumentou a venda de minérios e fez crescer o faturamento da  VALE . Mas  isso  mais tarde,   fez Eliezer  taxado de comunista e até de ser russo pela aproximação comercial com o Gal Tito e contribuiu pelo seu afastamento  da Vale em 1964, injustamente, pelo grupo  liderado por Gal. Golbery e Delfim Netto, este rodeava o governo militar. Eliezer fazia parte do governo de Jango, deposto em 1964 pelo regime militar como Ministro das Minas e Energia e Presidente da CVRD-VALE ao mesmo tempo, acumulando estas  duas pastas de muito trabalho e uma carga de trabalho que poucos executivos aguentam.

Eliezer só não foi preso por interferência do Gal. Castelo Branco, presidente do Brasil, que o admirava como engenheiro talentoso. Eliezer foi acusado de comunista  injustamente por despeito e inveja e também pela sua administração da CVRD-VALE de conceder moradia na época, assistência médica, alimentação de qualidade, melhores salários, etc. Benefícios aos seus empregados, o que era ainda pouco praticado no Brasil na relação empregador e empregados. Isso foi explorado como uma política socialista de Eliezer na época, para tirá-lo dos cargos que ocupava.

Desta forma,  Augusto Trajano Azevedo Antunes, grande empresário da iniciativa privada da mineração, dono da Caemi,   o levou para o seu grupo de empresas,  e lá Eliezer criou a MBR, que se transformou na maior concorrente de minério de ferro da CVRD no Brasil,  sendo adquirida depois pela própria CVRD-Vale, muitos anos depois. A MBR cresceu e seguia crescendo a todo vapor com a cabeça de Eliezer e a vocação de empreender, inovar com coragem.  

Enfrentar preconceito é o preço pago por pensar diferente, enxergar o futuro, ser visionário - estrategista e pensar à frente de seu tempo. São sempre perseguidos e taxados até de loucos.

Nem todos têm capacidade e inteligência de relativizar estratégias, objetivos e sucesso, ou  a capacidade da pensar grande como Eliezer Batista, ele sempre pagou um preço caro por pensar à frente, pelo seu talento, seja  pela inveja, despeito, ou mesmo imaginar que ele fazia o impossível.

 Foi combatido  por mudar o perfil logístico da CVRD, quando conseguiu investimento japonês  para construir navios de 100 mil toneladas, quando o maior era de 35 mil. Mudou as estratégias de navegação e enfrentou resistências mundiais. Contrariava grandes interesses. Enfrentou todos e venceu pela coragem, ousadia, competência, raciocínio sistêmico-holístico.  "A Engenharia faz parte de meus dias, eu gosto de realizar coisas grandes, os  desafios de fazer. Nasci para colocar em prática  o que debato com os meus colegas" (Eliezer Batista) 

Entrevista a Eliezer:

Por que o senhor foi perseguido durante o regime militar?
Para você ter uma ideia, uma das razões foi que eu falava russo... Durante a faculdade fui tentar aprender piano, mas meu professor, um alemão, gostava mais da minha voz e me transferiu para o coro ortodoxo. Como quase todas as peças do canto gregoriano eram cantadas em russo, não tive alternativa: fui aprender russo. Na época de estudante em Curitiba e, mais tarde, quando morei em Bruxelas, fiz muitos amigos russos e acabei participando da Academia Russa de Ciências. Durante o governo do Jango, a Vale construiu um porto em Bakar, na Iugoslávia, com dinheiro do governo iugoslavo, para atingir o centro da Europa com cargas graneleiras. E, como forma de agradecimento, Jango convidou o marechal Tito para fazer uma visita ao Brasil e eu o acompanhei aqui falando russo o tempo todo. Aquilo foi um golpe contra mim mesmo [risos]. Quando a revolução estourou fui tachado de comunista pelos militares. Basicamente, além de falar russo, eu tinha sido ministro de João Goulart e tinha fama de tratar bem os trabalhadores da Vale. Mas sempre fui um técnico, não tinha nada a ver com política, nem sabia o que era comunismo direito.

E o que aconteceu com o senhor?
Na época, perdi o cargo de presidente da Vale. Mas poderia ter sido pior do que isso. Eles queriam me cassar e me prender. Fui salvo pelo [empresário] Azevedo Antunes. Ele era o maior minerador do país e também amigo dos militares, e me convidou para criar em Minas Gerais uma companhia mineradora, a MBR, que bem mais tarde foi comprada pela Vale. Depois dessa experiência fui morar na Alemanha, um país que adoro e no qual vivi bastante tempo.

É difícil encontrar alguém como o senhor, que tenha viajado 178 vezes para o Japão. Por que tantas vezes?
Na década de 1960, o Brasil tinha minério em abundância, mas ninguém queria comprá-lo. O Japão precisava do minério para reerguer sua indústria siderúrgica, que tinha sido destruída na Segunda Guerra. Como presidente da Vale vi ali uma oportunidade de negócio para o Brasil. Na época, Estados Unidos e Europa não queriam vender minério para os japoneses. Foi por isso que viajei dezenas de vezes para o Japão entre os anos 1960 e 1980. Eu só me arrependo de não ter ajudado o Brasil a estreitar também os laços científicos e culturais com o Japão, a exemplo do que fez a Coreia do Sul. Nenhum país fica rico exportando apenas matéria-prima. Hoje, quem não apostar no quadrinômio pesquisa, ciência, tecnologia e inovação está fora da civilização moderna.

Recentemente, vi a palestra de um prêmio Nobel de economia que a certa altura disse que a economia está cada vez mais próxima de alguns conceitos filosóficos. Em linhas gerais, é como se a economia estivesse tentando medir o que é felicidade. O senhor acredita na ideia de felicidade? 

Os italianos defendem tudo isso de uma maneira muito bonita, dizem que a felicidade é uma forma de pensar. Quer dizer, nós temos a capacidade de nos tornarmos felizes ou infelizes. Se felicidade pra mim, por exemplo, for acumular bens, estou perdido: vou me tornar avarento e
egoísta. A prioridade para mim é conhecer bem a si próprio e as pessoas com quem você convive ou que estão ao seu redor. Aliás, isso é uma coisa muito importante que você aprende quando pensa em física quântica.

A física quântica busca essa ponte entre a ciência e a espiritualidade. Sendo um homem da ciência, um engenheiro, qual é sua ligação com a espiritualidade?
Ah, é muito grande. Mas penso a espiritualidade no âmbito de energia, e não da religião. A religião surgiu como um conjunto de regras que buscava a disciplina para, assim, permitir a convivência entre os homens. Isso se justificava no passado, nos primórdios da humanidade, mas essa necessidade é questionável nos dias de hoje, quando já absorvemos essas regras da convivência. Todos nós somos originários do que defende a teoria do campo quântico, ou seja, absorvemos energia para formar matéria. A vida surge daí e desaparece da mesma forma. Li recentemente um livro fantástico, O grande projeto, escrito pelo [físico britânico]Stephen Hawking [em parceria com Leonard Mlodinow], que traz teorias sobre a criação do universo e questiona a intervenção divina. De acordo com o livro, o mundo não precisa de Deus para funcionar. Eu vou muito no pensamento de Hawking. Minha crença é na energia.

A gente lida muito mal com a ideia de morte. Às vezes, vejo mães que não deixam as crianças verem um animal morto e evitam falar desse assunto com os filhos. Como o senhor, aos 88 anos de idade, lida com o assunto finitude?
Um poeta alemão já disse que o problema não está na morte, mas no morrer. Ou seja, o que assusta é o sofrimento físico e mental. Eu já passei por três momentos muito próximos da morte. Primeiro você pensa nas pessoas da família, segundo naqueles que dependem de você, e terceiro, e muito importante, é se eu fiz mal para alguém. Então o que me impulsiona, e me dá uma força muito grande, é o outro. É saber que sempre posso fazer alguma coisa útil para alguém. Hoje você vê a sociedade em decomposição no mundo inteiro por conta do egoísmo. Esse é o pior defeito do homem. Agora, se você se despir do egoísmo, a partir de um certo ponto que você tenha recursos pra manter um nível de conforto razoável, você tem mais prazer em fazer um benefício para o outro do que pra você mesmo.
https://revistatrip.uol.com.br/trip/eliezer-batista

Reiterando; ele foi criticado por algumas pessoas nos  EUA e Europa, por abrir as portas do Brasil e da VALE para o Japão, quando ninguém queria vender minério para os japoneses com receio deles reativarem a indústria bélica. 

Foi depois, criticado pelas mesmas  pessoas por assumir negócios pela CVRD-VALE com o General Tito, Iugoslavo socialista que mandava e desmandava na Iugoslávia,aliado da Rússia,  inimigo dos EUA, em plena Guerra Fria com a (Rússia socialista x EUA capitalista)  de forma  fazer o minério de ferro da CVRD-VALE, entrar pelo porto da Iugoslávia e de lá ganhar o mercado da Alemanha socialista e Áustria.  

E não para aí; muitos torciam contra a implantação do Projeto Carajás que ligava o Pará e Maranhão.  O Projeto Carajás, só saiu porque Figueiredo bancou e mandou os resistentes empresariais bairristas e políticos, arrumar o que fazer, ao invés de criticar as iniciativas desenvolvimentistas de seu governo e da VALE. 

Gal. Figueiredo, então presidente o Brasil,  não aceitava a indicação de ministros políticos em suas pastas. Tinham de ter currículo com experiência e competência técnica.   Mesmo privatizada a VALE,  até pouco atrás era submetida a ordens do governo, o que jamais existiu na época dos governo Figueiredo e Administração Eliezer Batista. Para eles a CVRD era uma empresa de raciocínio sistêmico com base em sistema logístico, e  só tinha lugar para engenheiros e administradores feitos na empresa; e que a conheciam  de ponta à aponta,  que tinham noção operacional da geologia até a navegação. Isso era muito exigido na época.

Havia alguns (poucos)  políticos e empresários mineiros e capixabas, sempre querendo mandar na CVRD-VALE, como imperadores. Ficaram ainda  enciumados, porque a  CVRD-VALE, passaria a dividir as suas operações de MG e ES com PA e MA. Assim a CVRD-VALE daria ênfase ao gigantesco Projeto Carajás gerando prioridades acima de MG e ES em termos de investimentos. 

Isso desagradava uma parte de políticos e alguns poucos empresários desses estados que achavam que mandavam no Brasil e que a VALE era deles. Eram essas coisas   bairristicas e egoísticas  de alguns poucos mineiristas,  capixabistas e  carioqusitas da Administração Central do RJ. Preconceitos puro;  pensavam no Brasil pequeno e minúsculo. Ao passo que Eliezer e o presidente Figueiredo pensavam  no Brasil grande,  gigante e  maiúsculo, sem preconceitos e opostos às conveniências pessoais e de grupos que opunham ao Brasil crescente.  Até hoje isso existe no Brasil em cidades, estados e na esfera federal. Os interesses pessoais e de grupo, acima do interesse da nação, o coletivo.

Quando Eliezer trouxe o programa CCQ(Circulo do Controle de Qualidade) para a CVRD, incentivado por Akio Morita, seu amigo particular, e dono da Sony, ele o mostrou uma apresentação do CCQ em uma das viagens de ELIEZER. 

Chegando ao Brasil, Eliezer determinou que o programa fosse implantado no Grupo CVRD-VALE, subsidiárias, associadas,  controladas e coligadas  nos negócios de geologia, mineração, ferrovia, pelotização, portos, navegação, siderurgia, alumínio,  energia, florestas  e celulose.  Foi  outra iniciativa de coragem, pois muitos burocratas, que torciam contra, ou o quanto pior, melhor, que existe em todo lugar,  tipo alguns consultores ou chamados coaching´s,  de hoje que brotam no mercado  resistiam, muito enciumados, porque o CCQ era um projeto vindo de fora, embora  já conhecido no Brasil, mas com nascimento no  Japão e  mostrava ser bem melhor do que os outros projetos dessa  linha  que estavam sendo trabalhados na VALE. 

Os resistentes não aceitavam o disparate entre CCQ X projetos internos em andamento e nem mesmo,  a própria decisão dos gerentes de área  que aderiram em massa o  CCQ, tão logo apresentado no Brasil.   Uma  parte foi  altamente resistente ao   CCQ trazido por Eliezer Batista. 

Diziam que CCQ, era coisa de japonês, e  que nunca ia dar certo na CVRD-VALE. Estas pessoas que criticavam, nunca andaram sobre as britas e os trilhos de ferrovia, nunca foram em uma mina, ou em uma usina de beneficiamento. Eram profissionais criados em sala de ar refrigerado, com água gelada e cafezinho quente na copa ao lado. 

Hoje isso se repete: muita gente fala que é coaching de mineração, ferrovia, produção, manutenção, etc. 

Mas estas pessoas não sabem diferenciar um trator de uma patrol-motoniveladora. Oque  tem de coaching  no mercado, que não entende do  que  se propõem a fazer é  uma aberração. Para tudo que vamos fazer, nós precisamos de experiência.

As  pessoas que malharam o CCQ de Eliezer na VALE, quebraram cara,  e feio!. O CCQ foi um dos maiores projetos de crescimento humano, social e profissional dentro do Grupo  CVRD-VALE, e sua história, nas suas  subsidiárias, associadas,  controladas e coligadas  em negócios de geologia, mineração, ferrovia, pelotização, portos, navegação, siderurgia, alumínio,  energia, florestas  e celulose. Produziu muito  conhecimento, inovação, criatividade,  know how, economia de milhões e centenas de patentes. Calou a boca de muitos burocratas e resistentes

O CCQ é capaz de renovar as energias, elevar o moral a auto estima dos grupos,  empatia e recuperar os ambientes profissionais afetados ou traumatizados. Porque une, integra as pessoas, ideias, sentimentos e as emoções em um sentido físico comum de solucionar problemas, crescer. Criar mudança, inovar muita coisa com reconhecimento, superar barreiras e desafios. 

O empregado enxerga soluções, melhora o processo em que participa diretamente. Produz e melhora a atmosfera do clima organizacional. Otimiza as suas tarefas e os padrões orgulhosamente, porque será reconhecido individualmente e em grupo. O ser humano não vive sem reconhecimento, elogios e atenção, porque ele precisa disso como entusiasmo, força e estímulo para energizar o seu potencial. Consideração, elogios e reconhecimento é uma matéria prima para o rendimento dos empregados. 

Outros já dizem que estas coisas unidas e lideradas  em comunicação, informação, empatia  e gerenciamento se transformam em combustíveis capazes de modificar cenários de uma empresa para o lado positivo.  É formado um  campo de sinergia, sincronismo na participação de pessoas, rendimento de processo e tecnologia. 

O ambiente de cooperação prevalece, cria-se a união de gerentes, supervisores, técnicos, mantenedores, operadores, assistentes e analistas para um determinado fim. Aglutinam os melhores esforços destinados a fazer a grandeza da empresa com orgulho, trabalho, dedicação e entendimento mútuo, ou a empatia que os grandes gestores procuram para melhoria do relacionamento das pessoas nas empresas, nas relações industriais para que fiquem  coesas e produtivas com segurança e confiança  mútua. 

Um CCQ forte na empresa é uma questão de estratégia inteligente relativa ao know how, valores do capital humano e operacional, porque é uma ferramenta barata formadora de um banco de conhecimento perene de alta utilidade e qualidade . Disso não tenho dúvidas, porque estudei este assunto  por mais de 20 anos na VALE. Participei de trabalhos nas minas de Carajás e ferrovias como líder e membro de grupos. Vi resultados palpáveis em todas áreas da empresa. Isso quando a VALE era ainda, muito mais diversificada em suas éreas de negócios em relação agora, já que ela saiu da celulose, alumínio, pesquisas geológicas, navegação e siderurgia da potencialidade de antes.   

A VALE avançou com o CCQ em termos de aprimoramento de equipes, cooperação e  integração, visando ambientes de departamentos humanizados, seguros para trabalhar e colaborativos. Os ferroviários apresentaram trabalhos fortíssimos na Estrada de Ferro Vitória Minas e depois na sua filha, Estrada de Ferro Carajás, trabalhos fenomenais em termos de criatividade, motivação e economia.  

Todo esse avanço estava no início dos anos 90, uma fase em que eram divulgadas as CRENÇAS DA VALE, FERRAMENTA DE OXIGENAÇÃO, MOTIVAÇÃO E CRESCIMENTO FILOSÓFICO DA EMPRESA, QUE ERA ASSUMIDA POR TODOS. FOI UM PERÍODO ÁUREO. NESTA ÉPOCA A VALE IMPLANTAVA O GQT - GERENCIAMENTO DA QUALIDADE TOTAL NA ERA BRUMER 

https://youtu.be/PPME5IadX6o (VÍDEO DOCUMENTÁRIOWilson Brumer  criou  um contrato de gestão entre  CVRD-VALE com o governo - Ministério das  Minas e Energia com metas arrojadas, etc. Mutos dizem; "a VALE teve dias  como empresa estatal, mais privada, do que muitas empresas privadas".

Em 30 anos que fiquei na empresa CVRD no norte, sudeste e centro-oeste. Sou hoje testemunho, porque  vivenciei isto de perto, assim  como os meus colegas. Não foi nada construído em cima de Internet e aplicativos. Foi físico. Tínhamos um orgulho fenomenal de gestão participativa, avanço, conhecimento adquirido, ação e integração de grandes conquistas e resultados avante.  

Coordenei e liderei trabalhos de CCQ premiados em seminários. 

Vejo portanto no CCQ um programa chave pelo crescimento humano-profissional-social precedido de empatia, criatividade, motivação, ação e resultados de economia como nenhum outro.  Os ganhos da CVRD foram exponenciais.  O CCQ  produz  líderes, fundamentais para fazer a empresa crescer como um todo em valores, disciplina, ética, moral e bons exemplos de comando e coordenação. 

O CCQ faz parte da Qualidade Total (TQC-estilo japonês) junto com o famoso  5S, que são outras grandes ferramentas de gestão.  Estas duas últimas, foram  trazidas por Wilson Brumer na sua gestão de presidente da   CVRD  no inicio dos anos 90, e que fez a empresa crescer em termos de capital humano, na mesma linha do CCQ, que chegou bem antes. O Professor Vicente Falconi Campos conduziu a implantação da Qualidade Total na VALE, na gestão Brumer. 

Hoje convivo com Brumer na Acminas - Associação Comercial e Empresarial de Minas,  ele é também o atual cônsul Brasil - Japão e presidente do Ibram - Instituto Brasileiro de Mineração, ex presidente de grandes empresas do Brasil. É um dos executivos mais preparados, inteligente, eficiente e de resultados do país. O mercado confia plenamente em sua reconhecida competência global. Nunca perdeu a sua humildade e simplicidade. É um professor destes comportamentos e  expoente como executivo. Na Acminas, faço parte do conselho de mineração e siderurgia e Brumer é vice presidente da casa. A sua convivência conosco é um centro de aprendizado.


As comunidades precisam das mineradoras e as mineradoras precisam das comunidades. O desenvolvimento não pode ser a qualquer custo. Deve haver uma direção sólida, estratégica e filosófica que crie uma visão da mineração verde, segura e confiável. Este é o futuro, a ética e o consenso de vanguarda. Quanto mais confiança e segurança, melhor o ambiente de convivência empatia, qualidade de comunicação e uma maneira de encontrar espaços amistosos de convivência. Uma empresa possui profissionais desse gabarito e pode perfeitamente  harmonizar suas operações e seu ambiente de negócio. Os gerentes entendem que todas as falhas que existem dentro das empresas elas vão estar relacionadas com pessoas e processo. Ambas dimensões gerenciadas por pessoas. Essa é a maior razão de valorizarmos o capital humano, o talento e a capacidade das pessoas. Falo da capacidade pensante e criativa. A energia que faz acontecer o rendimento maximizado de pessoas, processo, tecnologia, projetos e estratégias. A responsabilidade maior é produzir com segurança das pessoas, respeito ao meio ambiente e as sustentabilidades, compliance e uma cultura empresarial que tenha o lucro, mas ao mesmo tempo a priorizando um planejamento estratégico, ação, definição, redefinição e prática focada na prioridade da ética. E com essa direção estar compatível com a visão, missão, valores, crenças e repetindo; a ética como pilar central  e referência maior dos negócios.   



















Eliezer era engenheiro civil e ocupou o ministério de Minas e Energia durante o governo João Goulart. No governo Fernando Collor de Mello, foi secretário de Assuntos Estratégicos. Ele começou a trabalhar na Vale em 1949. 

Em 1961, foi nomeado presidente da mineradora pela primeira vez, sendo afastado com a deposição do presidente em 1964. Em 1968 foi convidado pela VALE, para comandar a RDI - Rio Doce Internacional  na Europa, uma área comercial estratégica.

Após  estas experiências e também passar pela  iniciativa privada da Caemi, retornou à presidência da Vale em 1979 e sob o seu comando, a companhia desenvolveu o Projeto Ferro Carajás, esta era a sua missão pedida pelo presidente Figueiredo, ou seja colocar em operação um dos principais polos produtor de minério de ferro do Brasil e do mundo e foi entregue antes do prazo com uma economia de US$ 1,4 BILHÕES, nenhum empreendimento estatal no Brasil teve esse desempenho, além do mais iniciava a mineração sustentável, ou mineração verde como pioneira e de vanguarda no Brasil. O Projeto Carajás foi o primeiro a levantar a bandeira verde na mineração, com aplausos e sucesso.   

Eliezer era viúvo de Jutta Fuhrken, com quem teve sete filhos

OITO IDIOMAS

Àqueles que, em dúvida, perguntavam se a pronúncia correta de seu nome era "Eliézer" ou "Eliezér", o engenheiro Eliezer Batista da Silva costumava responder: "At your option" (em tradução livre, "como você preferir").

Em uma só frase mostrava duas de suas muitas características marcantes: as citações frequentes em um dos oito idiomas que dominava e a capacidade de adaptação.

No Brasil, era Eliezer, oxítono, mas acostumou-se a ser Eliézer em suas andanças pelo mundo para fechar milionários contratos de venda de minérios para a Vale.

Podia, dependendo da situação, assumir outros nomes. Nos anos 70, no auge de mais uma das muitas crises entre árabes e israelenses, fazia check in em um hotel na Árabia Saudita quando ouviu de um desconfiado funcionário: "Eliezer é um nome judeu". Respondeu de imediato: "No meu país se escreve assim, mas se lê Ahmad". Desconcertou o interlocutor e conseguiu o quarto.

Eliezer Batista, nasceu em 1924, na minúscula Nova Era (MG), no vale do rio Doce. Lá conheceu aquela que, nas palavras da alemã Jutta Fuhrken Batista (1931-2000), sua mulher por 50 anos e mãe de seus sete filhos, seria sua amante por toda vida: a Companhia Vale do Rio Doce, onde trabalhou, com alguns breves intervalos, entre 1949 e 1997, ano da privatização, e que presidiu por dois períodos. Com Eliezer, a Vale se transformou de uma pequena mineradora em gigante

De suas ideias, vistas muitas vezes como megalomaníacas, surgiram marcos do desenvolvimento nacional, como o porto e a siderúrgica de Tubarão, no Espírito Santo, e o projeto Carajás, no Pará. O segredo para a ascensão da empresa, dizia o engenheiro, era o "planejamento sistêmico-holístico". "O que adiantava ter ferrovias se havia um gargalo no porto? Tive um estalo. Era tudo questão de logística".

"Logística" vem do grego logistikos, aquele que sabe calcular racionalmente. E isso Eliezer fazia muito bem, era mestre e tinha o mapa do mundo na cabeça, ligando matéria aos portos.

Ao assumir a presidência da Vale pela primeira vez, em 1961, aos 36 anos, tinha como meta tornar a empresa responsável por todas as fases, da extração do minério à entrega a compradores do outro lado do mundo. Queria também aumentar a exportação de minério de ferro, à época na faixa de 1,5 milhão de toneladas/ano e, quem sabe, vender o produto já beneficiado, com preço mais alto. "Nenhum país fica rico exportando apenas matéria-prima", dizia.

Encontrou nos japoneses os parceiros ideais. O país precisava da matéria-prima para reconstruir seu parque industrial, destruído na Segunda Guerra Mundial. Neste ano, Eliezer Batista fez a primeira de suas 178 viagens oficiais ao Japão. Firmou contratos de venda de longo prazo e capitalizou a Vale. Mas precisava de um porto que recebesse navios de grande porte para tornar o negócio rentável.

Em sua imaginação, os navios sairiam do Brasil abarrotados de minério de ferro e voltariam com petróleo árabe. Se não fechasse a equação, a operação seria economicamente inviável. Com o apoio do então ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, conseguiu tirar do papel a construção do porto de Tubarão, no Espírito Santo.

Orçado em US$ 100 milhões, o projeto não encontrava financiadores. Convencido da importância do novo porto, San Tiago Dantas mandou, nas palavras de Eliezer, "rodar a guitarra": imprimir mais dinheiro para bancar as obras.

Faltavam os navios. Nos cálculos do engenheiro, seriam necessárias embarcações com capacidade para transportar 120 mil toneladas de carga. No início dos anos 60, os maiores navios brasileiros levavam 10 mil toneladas; o maior do mundo levava 35 mil toneladas.

"Armadores europeus disseram que aquela ideia era a mais louca desde que Vasco da Gama contornara o Cabo da Boa Esperança", contou. Premidos pela necessidade do minério, estaleiros japoneses embarcaram na aventura e ajudaram Eliezer. Deram-lhe, ainda, a condecoração da Ordem do Sol Nascente, a mais alta honraria do país e que lhe foi entregue pelo imperador Hiroito.

 A ousadia de Eliezer aumentou a exportação anual da Vale de 1,5 milhão de toneladas por ano para 5 milhões de toneladas/ano. 

BARÃO DE CURITIBA

Um dos seis filhos do seleiro José Batista da Silva, que fabricava arreios para cavalos e burros, e da dona de casa Maria Natividade Pereira, Eliezer deixou Nova Era no início dos anos 1940 para estudar em um colégio de religiosos holandeses em São João Del Rei. Durou pouco tempo. Foi expulso em um ano, considerado pelos frades má influência para os outros alunos.

Não voltou para a cidade natal, que chamava de "a selvagem New Was", em referência à pobreza e falta de perspectivas na região. Foi para Curitiba, onde se formou em engenharia na Universidade do Paraná em 1948.

Lá descobriu o mundo. "Dizem que é uma cidade chata, sem graça, mas foram os melhores anos da minha vida", contou em entrevista. Usava roupas extravagantes, como uma gravata borboleta vermelha que fez com que os amigos o apelidassem de barão de Nova Era.

Nadava, praticava saltos ornamentais e pólo aquático, o que lhe rendeu porte atlético, apesar da baixa estatura, e sucesso com o público feminino.

"Não diria que eu era um galã, mas dava muita sorte com as mulheres."

Decidiu aprender a tocar piano, mas foi desestimulado por um professor alemão que lhe disse que tinha "mãos de moça" -pequenas, o que torna difícil a prática do instrumento. Recomendou que procurasse um grupo de canto gregoriano, onde sua voz de barítono, quase baixo, faria sucesso.

Como grande parte das obras para canto gregoriano foram compostas em russo, a sugestão o levou a aprender o primeiro dos muitos idiomas que falava -mais tarde passou a dominar o inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e "arranhar" grego e japonês.

Manteve o hábito de cantar no idioma ao longo da vida. "Não há nada melhor para o espírito do que um bom canto gregoriano pela manhã", contou à Folha de S.Paulo em conversa em outubro de 2012.

Sua história com a mineradora começou em 1949. Recém-formado, passara um ano estudando nos Estados Unidos e voltara para visitar a família. Encontrou Nova Era mudada. A sua cidade e mais à frente Governador Valadares, ambas em Minas Gerais nos vales do Aço e Rio Doce estavam  tomadas por americanos, empregados da Morrison-Knudsen, que reformava a ferrovia Vitória-Minas, da Vale. Arrumou emprego ali mesmo. Dez anos e alguns cursos no exterior depois já era o superintendente da ferrovia; em mais dois anos, presidente da Vale. Em 1962, a convite de João Goulart, passou a acumular a presidência da estatal com o cargo de ministro de Minas e Energia, o que manteve até junho do ano seguinte.

O prazer que o conhecimento do idioma russo lhe trouxe também aborrecimentos. Logo após o golpe de 1964, foi exonerado da presidência da Vale e quase foi preso. Aqueles que pediam sua cabeça apresentavam três justificativas: defendia os direitos de seus empregados, para quem construía casas, escolas e hospitais; tinha sido ministro de João Goulart; e falava russo.

Teria sido, inclusive, grampeado em uma ligação telefônica com o ditador iugoslavo Joseph Broz Tito. Tudo isso se somou e virou munição para seus inimigos, a maioria com interesses contrários, ao seu empreendedorismo e luta para o crescimento do Brasil e da CVRD-VALE, o afastarem como Ministro das Minas e Energia e da presidência da VALE, funções que acumulava.