As origens do medo do coronavirus (por Jorge Barcellos)

As origens do medo do coronavirus (por Jorge Barcellos)

O Coronavírus provoca medo. Porquê? Somos parte da natureza que possui ciclos de vida e morte, mas não aceitamos a morte como destino "A integridade do corpo é o alicerce de nossa sensação de ordem e completude" diz o geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan. O Coronavirus nos obriga a pensar nas origens da hostilidade do mundo: para o homem primitivo o mundo dividia-se entre aqueles que acreditavam que a causa do mal era externa – o meio ambiente – ou interna – a violação de um tabu. Nesse último, objetos estranhos, maus espíritos, magia e bruxaria eram a fonte do mal.

Na China antiga, o medo da doença era vista como um desiquilibrio entre um organismo e as forças cósmicas. A recuperação estava na busca do equilíbrio. As doenças, como a seca, eram sinal de desvio na harmonia do universo. Nesse tempo, pobres e ilustrados chineses divergiam quanto as causas das doenças: para o pobre, a causa era um demônio que precisava sacrifício para a cura; para os mais intelectualizados, era desordem entre o Yin e Yang.

Entre 450 e 350 a.C, foi publicado o mais importante texto de medicina chinesa, o Huang Ti Nei Ching, contemporâneo das obras de Hipócrates. Sua ênfase é o vínculo entre natureza e os seres humanos “o vento é a causa de cem doenças porque a pele protege mas tem poros e pode ser penetrada" diz o Nei Ching.

No Ocidente, epidemias frequentemente foram vistas como o castigo dos deuses por uma transgressão. Levamos anos para chegar a ciência médica do século XIX quando deixamos para trás a explicação de espíritos, demônios e bruxas. Mas uma ideia se preserva: a da influência do meio ambiente. Sabemos hoje que o Coronavirus propagou-se também por uma alteração do habitat, que o desmatamento é a origem das epidemias atuais.

Nossa ânsia em explorar a natureza e extrair suas riquezas, o crescimento exagerado das cidades e a busca sem ética pelo lucro do capitalismo neoliberal são os verdadeiros responsáveis pela pandemia. Hora de repensar não apenas a doença, mas nosso modo de vida, recusar ser consolado por falsas imagens, usar a ciência a nosso favor e ver no Coronavirus a lembrança de nossa contingência. Mexemos com a natureza e sabemos disso: daí vem nosso medo.