As regras do jogo da guerra ao coronavírus (por Jorge Barcellos)

As regras do jogo da guerra ao coronavírus (por Jorge Barcellos)    Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay


De autoria anônima, circulou em 2005 na internet um texto intitulado “O grande jogo da guerra civil”, que foi traduzido por Leonardo Araújo Bezerra e incluído na coletânea “Império e Anonimato: materiais suplementares às insurreições” (Glac Edições, 2019). O texto é um pequeno ensaio literário da condição revolucionária em momentos de guerra e aqui faço uma adaptação livre para os tempos de coronavirus.

REGRA 1

Até que surja uma vacina, com a emergência do coronavírus seu direito à saúde foi suspenso. Naturalmente, é conveniente para nós, vírus, que vocês conservem a ilusão de que ainda desfrutam de alguma receita, um remédio, vitamina para sobreviver a nosso ataque. Mas estaremos sempre prontos a mostrar um contra-exemplo a suas hipóteses mais científicas.

REGRA 2

Sejam gentis, não nos falem da importância de sua ciência, de quantos outros vírus vocês já enfrentaram. Faz algum tempo que vocês prepararam as condições para meu surgimento, e se vocês não notaram, sou um vírus que se coloca acima dos demais e também acima dos recursos que vocês dispõem para me combater.

REGRA 3

Vocês ficarão fracos, atordoados, sem saber o que fazer. Nós, os vírus, somos muitos e nossa desorganização é nossa força – estamos na sua maçaneta da porta, no chão, no seu portão, basta que alguém espirre em algum momento no seu trajeto que ficaremos por ali lhe esperando, talvez por dias. “Alguns dizem que nós somos uma máfia. Isto é falso. Nós somos A MÁFIA, a que venceu todas as outras.” Você viu o que aconteceu na Itália? Se nós somos desorganizados, somente a organização de vocês pode nos vender, mas como se sabe, vocês são incapazes disso, vocês deixam-se levar por autoridades loucas, pela economia – que já matava mais do que eu. “É por isso que gostamos tanto de introduzir em vocês o sentimento de fraqueza de insegurança”. Nós vencemos por causa de seus medos.


  Imagem de Alexas_Fotos por Pixabay

REGRA 4

“Para vocês o jogo consistirá em fugir ou pelos menos tentar fugir. Por fugir, nós entendemos; superar seu estado de dependência”. Por isso o lar é seu bunker, seu refúgio, seu lugar de fuga, sua única escapatória. Mas vocês são dependentes demais de seu mundo consumista não é mesmo? Vocês são incapazes de parar “a roda dos negócios”, nem mesmo para salvar suas vidas e são incapazes de ter o cuidado necessário não é? Pois estamos nas embalagens do que você consome, estamos nas sacolas dos produtos que vocês trazem para casa e vocês nem higienizam, não é?

REGRA 5 

“Vocês não conseguirão fugir sozinhos. Vocês precisarão então a começar por constituir as solidariedades necessárias”. Não basta um ir para casa; tem de ir a maioria. Não basta o rico empoderar-se de seus produtos, ele terá de dividir com os mais pobres, se não eles baterão a sua porta com fome. Para aqueles a quem os governos não alcançam, terão de ser autônomos e se auto-organizar. “Nós apenas deixamos subsistir o trabalho”, quer dizer, você ainda pode ser solidário, se organizar, ajudar o outro enquanto eu não o infectar. Através da amizade, da auto-organização e da solidariedade, isso é o que será fugir para vocês.

Regra 6 

Nós temos repetido para vocês, mas vocês são surdos: sua ausência é nosso inimigo. O único crime que vocês estão autorizados a fazer agora é nos matar pela ausência. “Como fugitivo em potencial, cada um de vocês é também um potencial criminoso”. Vocês entendem isso, a transgressão verdadeira não é abrir lojas e magazines quando autoridades pedem isolamento, é nos matar pela sua ausência e que vocês relutantemente, recusam?

Regra 7

“No nosso pequeno jogo, aqueles que saírem de seu isolamento são nomeados “criminosos”“. O crime que fazem, não é a mim, eu saio incólume e agradecido por sua presença nas ruas. Todos os que saem sem necessidade, vão em grupos passear, debocham das autoridades de plantão, daqueles que se protegem, são criminosos contra a civilização, contra seu povo, contra seus pares pois auxiliam-me muito no meu trabalho mortal e eu os alcançarei, mais cedo ou mais tarde. “Quanto àqueles que tiverem a ousadia de questionar este estatuto, nós os chamaremos de “terroristas“. Pois esta é a única forma que nos impõe terror, medo, pois vírus, sem um hospedeiro morre. Nós só tememos aqueles que se isolam.

       Imagem de mohamed Hassan por Pixabay

Regra 8

“O capitalismo apenas produziu até o momento, em matéria de riqueza, uma desolação universal. Nós desarmamos vocês mentalmente, fisicamente.” Francamente, estamos apenas fazendo a vocês o que vocês já fizeram com a natureza, estamos dando o troco, vocês não vai repensar seu modo de vida nem por um instante? “Se vocês estivessem em nossa posição, fariam outra coisa que não fosse o que nós já fazemos”?

Regra 9 

“Vocês vão conhecer a cadeia”. Vocês vão sentir o medo que a natureza sente, o planeta, preso com vocês no universo: um lugar do qual não podem sair e que estão ameaçados por todo o lado por coisas insignificantes, no caso, vocês, seres humanos movidos por interesses mesquinhos, pelo lucro. Vocês me produziram com seu ódio, com a exploração dos habitats em nome do lucro e de seus semelhantes. Eu estava preso e me libertei. Eu não sou apenas biologia,   estou aqui para mostrar o sentido politico do parar.

Regra 10

“Não há mais regras. Todos os golpes são permitidos”. Protejam-se a si e a seus entes queridos. Eu posso ainda me transformar muito para alcançá-los, posso mudar meu perfil de vítimas, mas vocês, só tem um novo mantra a seguir: isolamento, isolamento, isolamento. Mas vocês são infantis demais para ficarem sem seus brinquedos não é mesmo? Vão para o parquinho, eu estou lá esperando por vocês.

Ass: Vosso Coronavírus

Jorge Barcellos é historiador, mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. Mantém o site jorgebarcellos.pro.br



Tianna Weimann Feb 4, 2021 · #1

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