Como ver o inevitável (por Jorge Barcellos)

Como ver o inevitável (por Jorge Barcellos)    Imagem de Наркологическая Клиника por Pixabay

A pandemia chegou ao país. Você sabe disso, só não permite a imagem fatal tomar conta de sua consciência. Os sinais começaram com o aumento das sirenes de ambulância nas ruas da cidade que você nunca prestava atenção, mas agora, está mais atento. Você observa o passageiro na parada de ônibus a tossir e pensa imediatamente “- é coronavírus?”. Ao estudar a difusão do coronavírus, você encontra documentários, imagens, fotos, depoimentos do trabalho sanitário em outros países. Você fica horrorizado com as imagens de caminhões em carreata transportando corpos e teme imaginar que um dia isso se repita em sua cidade. O próprio Ministro da Saúde colocou isso: se o Presidente estava preparado para ver caminhões do exército transportando corpos de brasileiros. Ninguém está.

É que estávamos acostumados à mortandade cinematográfica dos seriados Walking Dead, cenificação extrema, pertencentes ao âmbito do artifício. A cena real de mortes nas guerras do extremo oriente ou na África eram reais, mas ainda assim distantes, como o inicio da pandemia em Wuhan, China. Michela Marzano, em “A morte como espetáculo” (Barcelona, Tusquets, 2010) aponta o ano de 2004 como o ano da virada da divulgação da imagem da morte em escala planetária “É quando aparecem os vídeos macabros realizados pelos grupos islamitas. Circulam livremente pela internet e são vistos por milhares de pessoas no ocidente. Mostram a fria execução por degola de centenas de prisioneiros ocidentais n Iraque ou no Afeganistão” (p.10). Para Marzano, é quando a representação da morte passa da ficção a realidade. Estamos prestes a viver uma mescla ambígua da imagem do horror que não são produto de simulação, mas situações reais de mortes por excesso de pacientes, por falta de estrutura. Veremos a crueldade do vírus em estado puro, talvez durante meses, dependendo das decisões agora das autoridades.

Marzano afirma que cultivamos uma espécie de fascínio pelo horror. Isso começou com o cinema e a literatura, é verdade, mas o que veremos agora é sem intermediários e precisamos nos preparar para experimentar o limite psíquico da tolerância, a multiplicação das discussões sobre o número de mortos – “se as decisões fossem outras, seria menor?”” Estamos contando corretamente nossos mortos ou há mais?” A morte passará a ser transmitida em tempo real, parte da necessidade de informação mas também, com poder de mexer com nossas pulsões: o efeito, aponta Marzano, é apenas um “o principal é de anestesiar, pouco a pouco, o juízo do espectador” (p.14). O que essas imagens fazem é transformar a morte em espetáculo em nossas casas, introduzem a crueldade de um vírus, aquilo que pode ser chamado de “realidade-horror”.


Os órgãos de imprensa reivindicam o direito dos cidadãos a serem informados e em nome da liberdade de informação chegam as nossas casas imagens aterradoras de mortes por coronavírus. Diversos psicólogos já alertaram para a necessidade de por um limite a isso: a capacidade do indivíduo de absorver o sofrimento é finita, a capacidade de difundir a imagem da morte pelos meios de comunicação é infinita. O que coloca, para Marzano, a questões ética: é preciso mostrar tudo? É preciso ver tudo. Marzano, inspirado em René Girard de A violência e o Sagrado, aponta que o papel da imagem da morte possui relações com substituições que o ritual de sacrifício proporciona para explicar a loucura terrorista que é executar reféns no Extremo Oriente. Mas trata-se da mesma cena de morte? No caso dos terroristas, é uma escalada sem fim de violência, no caso das vítimas do coronavirus, é uma espécie de antecipação, pois o que é contagiante é a imagem da morte, que invade nossa consciência. De certa forma, o vírus é um terrorista e nós somos os reféns; de certa forma não é assim que nos sentimos, como reféns que imploram por sua vida? As vítimas agudas do coronavírus já foram privadas disso, já que estão entubadas e com destino incerto. O paralelo continua, já que se para os terroristas, a morte por execução é sua forma de dizer sobre a barbárie da civilização, para as vítimas do coronavirus é a forma da natureza dizer sobre a barbárie das politicas públicas, das ações tardias do governo, da produção de desigualdade em escala planetária, em sua, das terríveis consequências do capitalismo desenfreado.

Talvez devessemos pensar o que fazer contra estas imagens tão terríveis. Elas podem alimentar a depressão e o medo, mas entretanto, podem aprumar o espírito para a reação. Talvez não devesse se perguntar se devem circular, o que atenta para a liberdade de imprensa, mas sim: o que faremos se elas se tornarem insuportáveis? Sim, porque o contrário também pode acontecer – se já não está acontecendo? – de que elas terminam por nos tornar insensíveis, nos produz uma insensibilidade com relação ao sofrimento dos outros. Não é assim que agem nossas elites, que mesmo frente às mortes por todo o mundo teimam em chamar ao retorno ao status quo, a normalidade? É bem verdade que, em nome da conscientização da população com relação aos perigos do coronavirus, os meios de comunicação tenham buscado – “aterrorizar”, a palavra não é exatamente esta, paciência – a população com as imagens da tragédia, dessa realidade-horror, movidos pela boa intenção de que assim os cidadãos ficassem em suas casas. Tratar-se-ia então de avisar as “almas sensíveis”, o que está próximo de se ver, como é feito antes de um site permitido só para adultos?

Marzano critica a retórica da sensibilidade não porque existam “mentes fortes” e “mentes fracas”, mas porque é preciso reconhecer a necessidade e impor limites ao que pode ser visto. “Depois, pouco a pouco, me dei conta de que é possível se acostumar com estas imagens extremas, o costume que permite aceitar o inaceitável, que inclusive pode converter uma “alma sensível” em uma “insensível”“. Marzano acredita que esse tipo de visão fomenta uma sociedade de indiferença, e aponta a origem dessa concepção na leitura feita por Freud, em 1922 na representação da Medusa da mitologia grega. Ele constatou o símbolo: porquê tantos artistas representaram a cabeça de uma mulher decapitada? - pergunta Freud. Para ele, o motivo estava no fato da descoberta da sublimação, a imagem tem a função de dominar nossos medos. Por que temos medo de morrer de coronavirus, vemos sua imagem, espécie de sublimação por antecipação “Quando se põe um objeto ou uma realidade em imagens, existem regras que definem inclusive o estatuto das representações, [que] permite comunicar certa visão do mundo” (p.66). Marzano sugere que devemos sempre manter certa distância da imagem, tomar uma posição com relação a ela, pois seu objeto pode fazer desaparecer nossa sensibilidade, interesses e desejos. Quer dizer, mesmo que passemos a ver as imagens de mortes de cidadãos de nossa cidade, ainda assim existirá uma diferença que é preciso preservar. Eu não posso naufragar na indiferença, eu devo fazer alguma coisa.

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Marzela lembra o pensamento de Georges Bataille que constatou a obscenidade contida em determinadas imagens e extrapola essa definição para as imagens de violência que se podem aplicar as imagens de mortes, inclusive, entendo, as provocadas pelo coronavirus “o espectador enfrenta com elas a consternação, porque a realidade das imagens o expõe a vertigem da crueldade mais feroz. Aquele que olha não pode distanciar suas emoções nem esclarecer seu juízo, o abismo provocado pela realidade da violência não se vê retido por nenhum filtro” (p.69). O problema da imagem da morte por coronavírus, essa realidade-horror, deve-se ao fato de que o telespectador não possui nenhuma proteção, nenhum filtro, apenas vê a morte como violência extrema, e nesse momento, produz-se a ausência do pensamento e a pura emoção do horror. Não há sublimação, catarse possível.

Platão, no Górgias e Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz Marzano, explicam que a crueldade depende da barbárie e se encontra excluída da ordem humana. Assim, o vírus é cruel exatamente por essa razão, porque está fora da ordem humana, incapaz de preservar a vida, ele a tira; fora da ordem humana, incapaz de poupar as vítimas mais fracas, ele as vitima – já se é possível encontrar crianças atingidas pelo vírus. E isso não pode ser argumento para defender o indefensável, de que a morte de velhos seria um mal menor que poderíamos tolerar. Não! Não é possível julgar o valor de uma vida humana simplesmente porque ela tão tem valor, exceto para os eugenistas que pregavam características especiais deveriam dizer quem vive e quem morre. O que faz o acesso a inúmeras imagens de morte por coronavirus? A perda da empatia, a capacidade de frente ao sofrimento de outro ser humano, termos compaixão.

O risco de contemplar a morte do outro é cada um ficar preocupado com sua própria vida e deixar o outro abandonado a sua própria sorte. Felizmente, parece não ser isso o que vemos acontecer no país, com a multiplicação de redes de solidariedade e auxilio mútuo. Talvez possamos afirmar que somente a elite volta-se para a preservação de seus próprios interesses mesquinhos, enquanto grande parte da população ainda encontra na solidariedade uma base para viver. É a diferença entre surgir como homem e como coisa, e Marzano teme uma apologia da indiferença promovida pela difusão global da imagem da morte pelos meios de comunicação. Pois o que precisamos é que estas imagens incentivem a compaixão, isto é, não o lamento pelos mortos, mas buscar eliminar a distância entre o que sentimos e o que é objeto desse sentimento, uma postura social em direção ao outro para fornecer ajuda temendo o medo da aflição da morte instaura.

Assim respondendo a questão inicial, que fazer frente à realidade horror representado pelas imagens das mortes do coronavírus, cabe aos profissionais da comunicação detalhar o conteúdo da informação para não alimentar uma absorção indevida e ao público, o dever de uma compaixão ativa que, inspirada nas vitimas, se dirija ao próximo como objeto de cuidado.

Jorge Barcellos é historiador, Mestre e Doutor em Educação. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br