Razões para o respeito ao isolamento (Por Jorge Barcellos)


Razões para o respeito ao isolamento (Por Jorge Barcellos)  Presidente e equipe em 3 minutos de silêncio na China. Foto: Reuters

O que tem em comum a imagem de chineses parados por três minutos na manhã do ultimo sábado (dia 3) para homenagear os mortos na epidemia de Covid-19 e as sucessivas atitudes dos defensores do retorno às atividades econômicas, que saem às ruas para viver a vida na normalidade, passeando no espaço público, contrariando as diretivas de isolamento defendidas pelo Ministério da Saúde? Numa palavra, respeito ou ausência dele. Bastou à sirene tocar na China que, de imediato e onde estivessem, centenas de milhares de pessoas pararem nas ruas e trens, automóveis e navios fazerem soar apitos para recordar as vítimas da epidemia. Todos fazendo isso de cabeça inclinada numa atitude de respeito, com sentimento de pesar pelas vítimas, incluindo médicos e enfermeiros. O presidente chinês, Xi Jinping, e seus funcionários, foram mostrados de pé, com cabeça baixa, em atitude de respeito, em um complexo do governo e enquanto isso, carreatas de empresários rompem o isolamento contrariando as orientações do Ministério da Saúde como no último sábado, quando foram às ruas chamando de “vagabundos” aqueles que permaneciam em isolamento, ofendendo e chamando ao trabalho numa rechaçada pelas autoridades medico-sanitárias?

O respeito é uma atitude moral fundamental “o que é essencial do respeito é dado pelo olhar”, diz Josep Esquirol em “O respeito ou o olhar atento” (Autêntica, 2008). Há coisas que merecem serem respeitadas, como as vítimas de uma epidemia, como fizeram os chineses ao pararem por 3 minutos, ato que os vinculou entre si com o mundo, exatamente o contrário do gesto dos manifestantes da passeata que se ausentam de qualquer vínculo seu com um projeto nacional de atitudes de proteção, e, portanto, incentivam o surgimento de mais vítimas. A atitude respeitosa dos chineses é um apelo à harmonia, a de nossa direita radical, ao conflito. Em ambos as atitudes há uma ética do respeito envolvida, seja daquele que interrompe seu cotidiano para honrar suas vítimas, seja na sua ausência promovida pela carreata e por todos aqueles que vão ao espaço público sem necessidade, para jogar bola, exemplo da vitalidade da superficialidade das relações no contexto neoliberal.

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O respeito é uma atitude em direção a alguém ou algo, o respeito às regras do Ministério da Saúde é equivalente ao respeito à coisa pública que aprendemos a dar atenção. O respeito às vidas que se foram é o equivalente ao respeito pelo sagrado, nosso sentimento mais elevado, e nesse sentido, a atitude chinesa é duplamente respeitosa: ela nos diz que devemos respeitar as vítimas, mas também o seu algoz. A Covid 19 é uma pandemia que merece nosso respeito, é preciso uma atitude respeitosa, o que significa, ter cuidado com as palavras que se usa com relação a ela, com relação àqueles que defendem o isolamento, manter uma “distância respeitosa”: não exatamente isso que o isolamento é, o equivalente da distância do cumprimento respeitoso oriental entre dois contendores de uma disputa? Isso significa que a Covid 19 é pandemia que merece nossa atenção sim, o contrário de que diz a direita reacionária e os maus empresários de plantão, e ao contrário do que diz o Presidente, não “é uma gripezinha”. Os chineses dão atenção à doença e as suas vítimas, nossas elites não. Nisto reside à diferença da definição de respeito, o olhar atento à doença, a simples condição de possibilidade de infecção deve ser motivo suficiente para o isolamento.

Por que uns respeitam a Covid 19 e outros não? “O olhar tem algo de estranho, de paradoxal: a total facilidade de olhar contrasta com a dificuldade de olhar bem” (P.11). Se me sinto bem, se olho e vejo agora que não tenho sintoma algum, não consigo prestar atenção na experiência de outros países com a pandemia, não consigo perceber que também posso ser vitima. A mera visão, percepção, não me conscientiza porque que tenho de fazer um esforço e por essa razão, ainda há aqueles na sociedade que teimam a romper o isolamento, vão às praças, mantém seu cotidiano como se não pudessem ser atingidos ou não estivesse uma pandemia em andamento no planeta “dirigir o olhar e concentrar-se em algo já supõe um esforço e acarreta, portanto, um cansaço”, diz Esquirol. “O movimento de atenção não é frequente, mas raro”, finaliza.

Por isso dezenas de manifestantes foram às ruas exigindo o retorno a normalidade não passam de empresários gananciosos que tratam as pessoas como coisas, assumindo uma postura de imposição de riscos a seus empregados. Não conseguem, nesse movimento, sequer resgatar a si mesmo da exposição, revelar um respeito e amor por si próprios frente à pandemia. Diante do discurso “haverá prejuízo econômico”, são os primeiros a irem contra a razão e as normativas do Ministério da Saúde, servindo-se de opiniões e do senso comum para justificarem suas ações. Quantos foram chamados de “vagabundos” por uma direita irracional e insensível que quer o retorno de todos ao trabalho? Esse moralismo dantesco, primitivo, reacionário, típico das elites que colocam a exploração do trabalhador acima do bem valioso que é a vida humana, possui um déficit de olhar, um déficit de respeito. Eles desrespeitam duas vezes cada um que se preserva em isolamento, primeiro pela recusa do cuidado com o outro, e depois da recusa com o cuidado a si mesmo.

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“Nem todos os que olham veem”, diz Esquirol, é preciso esse “olhar da mente”, se afastar de nossa condição saudável e imaginar o pior, imaginar pelo distanciamento essa nova realidade que a pandemia impõe. O problema é que a visão tem esse vício de ser o sentido mais direto e mais efetivo: você não vê os sinais imediatos da doença e, portanto não se preocupa com ela, não se dirige com cuidado para as situações de crise que hoje ocorrem na Europa e nos Estados Unidos. Essa indiferença é que tem significado moral, ignorar a pandemia contrasta com leva-la em conta, considerá-la, o contrário do posicionamento ético dos chineses, com seus três minutos de silêncio, é sua ausência nas atitudes daqueles que participaram da carreata. Não se pode ser indiferente à tragédia que atinge povos do mundo inteiro, não se pode deixar de reparar em seus mortos assim como não se pode incentivar a exposição dos vivos. É uníssona em escala mundial a defesa do isolamento, então como é possível recusa-lo? “A ignorância é antagônica ao respeito”, finaliza Esquirol.

O filósofo grego estoico Epiteto nasceu em Hierápolis e 55 e morreu em Nicópolis em 135. Ele viveu sua vida em Roma como escravo a serviço de Epafrodito, o cruel secretário de Nero que, segundo a tradição, uma vez lhe quebrou uma perna. Sua obra foi editada por seu discípulo Lúcio Flávio Arriano de Nicomédia onde encontramos suas reflexões em como viver uma vida plena e feliz, como ser uma pessoa com boas qualidades morais. Para Epiteto, uma vida feliz e uma vida virtuosa são sinônimas, felicidade e realização pessoal são consequências naturais de atitudes corretas. Nas suas Dissertações (Livro IV, XII) diz.

“Agora, quando digas: “Amanhã prestarei atenção”, saibas que o que dizes é isto: ”Hoje serei desavergonhado, impertinente, malvado; dependerá de outros o entristecer-me; hoje me irritarei, serei invejoso”. Olha quantos males voltas contra ti. Mas se amanhã vai estar em, melhor ainda hoje! Se amanhã vai ser conveniente, muito mais hoje, para que também amanhã seja capaz e não posponhas de novo o amanhã ao passado”.

A passagem nos mostra o vínculo da atenção com a moral, pois prestar atenção ao isolamento é garantia de boa conduta e felicidade e o contrário provoca a infelicidade e o adoecimento. Epiteto adverte sobre a dificuldade de prestar atenção quando já se perdeu o costume de fazê-lo. Não é assim com o retorno às ruas por cidadãos sem cuidado algum ao final de semana, não é a perda do costume de isolar-se? Isolar-se é um hábito, uma nova maneira de viver a vida para se proteger do vírus e por isso, Epiteto diz claramente que a pessoa perde atenção por simples motivos: ”Hoje quero me divertir” é a passagem do texto de Epiteto que indica as razões simplórias para a quebra do bom hábito, que pode ser visto hoje quando multidões adiam sua atenção ao isolamento, falta que irá cobrar um preço alto adiante quando o gesto mostrar como efeito o adoecimento em massa de difícil recuperação.

                                                Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) e Dersu Uzala (Maxim Munzuk)

Por que seguir a prescrição dos médicos? Primeiro porque o olhar médico é como o olhar de Derzu Uzala, personagem do filme de Akira Kurosawa, o olhar do caçador ligado à natureza enquanto que o olhar daqueles de defendem a volta ao trabalho e a normalidade é o olhar de Arseniev, o oficial da expedição que contrata Derzu. A diferença está na atenção: ”Derzu se orienta melhor, conhece melhor a importância das coisas, inclusive as menores, e é mais capaz de sobreviver nessa terra duríssima”, diz Esquirol, que finaliza ”Derzu respeita porque vê”, respeita a natureza. Por isso médicos orientam dia a dia o isolamento, defendem a vida, ao contrário daqueles que defendem a volta à atividade econômica e que expõem todos ao risco de morte.

Segundo porque nega nossa indiferença. No mito de Prometeu, conforme Protágoras, de Platão, no momento de nascimento das espécies, Epimeteu foi encarregado de distribuir capacidades. Mas a raça humana ficou no final da fila e então Prometeu deu a capacidade técnica aos homens, que poderiam inventar tudo o que precisavam para si. Zeus viu que os homens terminavam brigando nas cidades, atacavam uns aos outros e então deu ao homem a justiça e o respeito (dike e aidos) “para que houvesse ordem nas cidades e vínculos de amizade entre os seus habitantes. Nos mitos, o respeito é tão importante quanto à justiça para viver nas cidades, torna possível sua existência.” Porque a sociedade humana participa do transcendente, há coisas que são sagradas “a relação entre o respeito e o sagrado é das mais originárias: o respeito máximo era exatamente o respeito que se devia ao sagrado”, diz Esquirel. O problema das sociedades atuais para manterem o respeito é que elas perderam sua dimensão sagrada, na visão neoliberal não há respeito porque predomina a indiferença e a avidez da posse.

É o consumismo e não a relação com o sagrado que importa “A nossa é uma época de enaltecimento da facilidade; ser indiferente não custa nada; para ser indiferente basta não fazer nada“ diz Esquirol. Por isso ainda há pessoas que vivem o seu cotidiano como se não houvesse vírus, saem às ruas, pois são indiferente a pandemia. É muito mais fácil manter o cotidiano do que se privar dele, deixar de sair exige esforço.

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Vivemos num sistema econômico perverso que conspira para nos levar ao espaço público para consumir e não é a toa que alguns comentários das redes sociais já apontam para o fato de que a principal lição do isolamento é que perceber que podemos viver com muito menos do que nos é oferecido. O que nos faz romper o isolamento é o apelo a consumo, que pressupõe a proximidade das vitrines das lojas consumindo pelo fim das distâncias, enquanto que o controle do vírus depende de nosso distanciamento. Nosso tempo é o do consumismo exacerbado, da aplicação dos valores do capital, do poder do empresariado perverso que impõe muito mais a indiferença ao vírus do que o respeito a ele. Não foi o capitalismo que transformou nosso habitat facilitando a emergência do coronavírus? Não foi a tecnologia que impôs o fim das barreiras entre homens e mundo natural e que permitiu o acesso de vírus que não existiam em nosso meio?

Não poderemos vencer a luta contra o vírus sem alimentar o respeito por ele, pelas vítimas e pelo trabalho de médicos e sanitaristas. Se não respeitarmos as orientações sanitárias, se não respeitarmos a predição de isolamento, se não respeitarmos a natureza em nossa ação, só estaremos fugindo da solução de nossos problemas cotidianos. Os médicos não estão orientados apenas teoricamente, é uma orientação para vida “o olhar atento é condição para se orientar na vida”, finaliza Esquirol. O respeito às regras de isolamento nos conecta com o mundo e com o outros, não é uma evasão dele e nem vagabundagem como dizem os neoliberais e reacionários de plantão, é uma forma de vigiar nossa atitude e se orientar frente ao mal que espreita para preservar a vida.

Jorge Barcellos  Historiador, Mestre e Doutor em Educação. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e “A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus,2018, é colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e do Jornal O Estado de Direito. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.