Carolina Vieira en Communication et Journalisme, beBee em Português, Escritores Redatora publicitária de rádio 27/2/2018 · 3 min de lectura · +700

Das polêmicas, da apreciação e do olhar

            Das polêmicas, da apreciação e do olhar

                                                                       Caravaggio, Fragment of Martha and Mary (Circa, 1599)



            Alguém me perguntou por que demoro a escrever por aqui e porque sempre escolho artistas e escritores “de elite” como objeto. Disse-me que eu deveria ampliar meu escopo e falar de artistas “mais populares, como Romero Brito, por exemplo”. Segundo ele “ninguém irá ler meus escritos que têm o ar da superioridade acadêmica”. Também censurou-me por eu “separar o que é arte e o que não é arte”. Então resolvi escrever um pouquinho sobre algumas das coisas que meu amigo citou, mas de início deixo claras algumas coisas: 1. não tenho pretensões acadêmicas simplesmente porque não sou uma acadêmica das Artes, e 2. eu escrevo sobre o que vibra e me toca e sobre aquilo que pode ser interessante para outras pessoas pesquisarem e estudarem, 3. não tenho pretensões de atingir um grande público, pois esses escritos são apenas uma diversão.

            Em minha opinião, os pensamentos são o mistério mais lindo que há. O pensar faz o homem, em sua beleza e idiossincrasias. Muito cedo tive consciência dos mistérios da mente — demasiado cedo até — e muito cedo também percebi a usurpação falsificada que o espírito humano faz da realidade e da sua relação com a realidade. Sempre fui um pouco estranha, alheia ao mundo, e contraditoriamente, talvez, fui demasiado apegada e subserviente a ele. Para apreendê-lo e compreendê-lo. Mas a existência material das coisas nunca foi o único bem que aprendi a reconhecer. Fiz um caminho árduo para entender muitas coisas [especialmente aquelas que me exigiam coerência demais]. Mesmo depois de tocar as coisas, aprendi que a matéria não existe — embora eu nunca saberei explicar de onde vem o peso e a gravidade que nos empurra para baixo, vergando a leveza pueril do éter, ou porque podemos tocar o corpo e as coisas em volta. Não estudei Física o suficiente para explicá-lo, apenas sinto. Mas mesmo assim, sem conseguir dizer da verdade, talvez eu me tenha aprofundado na fragmentação que experimento dos mistérios, mais do que as pessoas que vêm me dizer verdades tantas. Ou me conclamar a escrever sobre "artistas" que não considero artistas ou exigir isso ou aquilo nos meus textos.

            Eu tive [e tenho] que ler duramente, e já quebrei a cabeça com muitos autores. Penetrei em muitas ideias e teorias e não sei nada. Tenho sempre que recomeçar. Desse percurso e dos tropeços e obstáculos, fui escalando uma profusão de temas, teorias e estéticas e acabei por me tornar uma pessoa “seletiva”, digamos. Talvez essa característica seletiva incomode meu amigo, que aprendeu [por outros caminhos] que ele deve aceitar tudo o que apreende como “bom” ou “Belo”. Mas posso assegurar que tivemos aprendizados diferentes, trilhamos caminhos bifurcados, ele e eu, e se eu aprendi o olhar atento ao estilo, à essência e ao valor do trabalho artístico, isso não é nenhum privilégio e nem arrogância: ao contrário, é apenas estudo, leitura, observação e análise.

            Observo pessoas. Observo o mundo. Observo o invisível [se assim posso nomear]. Mas é engraçado que, desde sempre, o que mais me atrai onde quer que eu olhe, é a Beleza que brota dos artistas. Escolho aqueles que me tocam, ensinam e me enlevam, me jogam na fogueira ou me levam à contemplação e ao Belo. E, sim, creio que uns são geniais e outros são fakes, para usar um termo da moda. O mistério torna-se mais e mais mistério quanto mais eu tento penetrá-lo. Pode parecer arrogante o fato de alguém definir entre o que seja arte verdadeira e arte fake. Talvez. Mas não consigo fugir a isso. O amigo diz que é porque fui “escolada numa estética que se acha dona da verdade”. Eu apenas ri, mas não julgo sua opinião, pois ele considera qualquer coisa válida, qualquer tentativa é arte. E eu, eu não tenho a capacidade de apreciação irrestrita que ele possui.

            Considero que há muita arte ruim, ou que se chama de arte e não é arte, é outra coisa. Simplesmente porque alguns "artistas" são impelidos à artificialidade de uma ostentação pretensiosa da arte, fazem-na como um simples gesto arbitrário da vida, sem qualquer fé naquilo que fazem. Ou fazem por dinheiro, simplesmente. Assim, aplicam sua liberdade de escolha, a escolha casual, aleatória, e fazem uso da imaginação limitada e fechada sobre si, e caem em uma falsificação do poder pela simples arrogância de um direito [o direito de se chamarem artistas e donos do dom da arte] que não possuem — e cujos verdadeiros criadores nunca julgaram possuir —, o que serve de máscara dissimulada do seu falso dom.

            Creio também que a vaidade de muitos destrói parte da essência que pode existir em qualquer gesto. A criação como exigência, a criação como busca de status, de espaço ou de dinheiro e que explode de repente, se replica ferozmente na mídia, e é gerada pela simples exigência de se produzir qualquer coisa, parece-me apenas ensimesmamento. O resultado são obras que não ultrapassam a expectativa e o limite de uma vaidade autocomplacente, de um ideal que se torna um prazer imediato e efêmero, não importa por que meios sustentado ou alcançado.

            Do meu lado, escolho apreciar e falar sobre aqueles [nas artes plásticas, na música, na literatura etc] que têm a arte como um ofício necessário de criação, de trabalho árduo, de sofrimento e mergulho, de pesquisa, do aprofundamento de um talento e mais que isso: de vida, de morte. Enfim [e porque esse texto está ficando muito longo], respondo ao meu amigo que pretendo apenas falar de Beleza, não escolhi um discurso recheado de academicismos para escrever aqui, e essa não é minha intenção. Menos ainda doutrinar. É por prazer de sentir e partilhar o que considero digno de apreciação e cuidado.