Carolina Vieira en Communication et Journalisme, beBee em Português, Escritores Redatora publicitária de rádio 18/3/2018 · 3 min de lectura · +900

De como lidar com o fracasso, OU de uma breve conversa sobre Sêneca

De como lidar com o fracasso, OU de uma breve conversa sobre Sêneca

             Les derniers moments de Michel Lepeletier, Gravure d'Anatole Desvoge d'après Jacques Louis David.



Ontem, publiquei em outra rede social um trecho de entrevista com o filósofo Alain de Botton, para abrir uma discussão sobre nossa forma de lidar com as transformações atuais. Creio que muitas de suas reflexões podem fazer-nos melhor compreender nossa época e trabalhar aspectos que nos ajudem na gestão profissional e na gestão da Vida. Isso porque acredito que ser um profissional é viver a nossa vida na plenitude das nossas ações práticas.


Alain de Botton têm uma série de livros e vídeos que abordam a Filosofia de alguns pensadores da antiguidade. Os vídeos são um trabalho meticuloso, bem realizado e com uma linguagem fácil e agradável, a qual busca paralelos com a atualidade, e desmitifica a velha concepção de que a Filosofia é matéria hermética e para poucos. Ao contrário dessa vertente, uma de suas tarefas como catedrático em Filosofia é exatamente tornar a matéria palatável e útil para o nosso cotidiano.


Em minha atual condição profissional, tenho refletido bastante sobre alguns “conceitos” que são erigidos como máximas no mundo do trabalho. Entre eles o conceito de “fracasso” e “sucesso” e as relações entre felicidade, riqueza e pobreza. E no contexto das palavras e pensamentos de Botton, lembrei-me de algumas de suas falas sobre essa questão. E entre elas, uma que abordava as ideias de Lucius Annaeus Sêneca.


A partir dessa reflexão, escolhi hoje falar um pouquinho sobre esse excêntrico filósofo que viveu entre 4 a.C. e 65 d.C. E porquê o elegi? Porque no mundo corporativo a ideia de fracasso e de sucesso passa, antes de tudo, pela ideia de “bens, dinheiro, acumulação de capital e riqueza”, mas Sêneca deixou-nos muitos textos que hoje podem ser lidos como com orientações para lidar com o fracasso (ou para alcançar o sucesso) e essas ideias nada têm a ver com bens materiais, aliás, é a renúncia ao materialismo e à acumulação.


Embora tenha discorrido longamente sobre o que deve ser feito para evitar as frustrações e o fracasso, e como alcançar o sucesso (e consequentemente, a felicidade), curiosamente, o próprio Sêneca nunca obteve “sucesso” já que sua vida foi longa, nada fácil (por inúmeros problemas e fatalidades), e ele acabou morto sem desfrutar de suas próprias conquistas. 


Sêneca nasceu em família rica, mas viveu de maneira simples, recatada e absorta em introspecções e estudos. Antes dos 25 anos já era advogado e entrou para a carreira política, como representante oficial do Senado romano. E assim foi, durante os principados de Calígula, Cláudio e Nero. Ao mesmo tempo, dedicava-se aos estudos de forma profícua e rigorosa. Redigiu tratados filosóficos, nove tragédias, uma comédia e três consolações, nas quais expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia ao materialismo e a busca da tranquilidade da alma por meio do conhecimento, da racionalidade e da contemplação na Natureza.


Mais tarde, quando Nero chegou ao poder, Sêneca foi escolhido seu conselheiro particular e orientador político. Suas contribuições foram bem recebidas pelos maquinadores políticos de Nero no início, mas, aos poucos, ele passou a ser criticado por sua postura contrária à tirania absoluta do Imperador e a absurda acumulação de riquezas, incompatíveis com seus próprios valores morais. Sêneca, neste momento, já pregava uma vida estoica, simples e repleta de amigos, de Natureza e de tranquilidade.


Em 62 a.C., Sêneca foi acusado de participar de uma conspiração para assassinar Nero, orquestrada por Pisão. Mesmo sem provas, Nero condenou-o à morte por suicídio. Tragicamente, foi orientado a cortar as próprias veias da perna. Mas isso, infelizmente, não funcionou. Como se não bastasse o sofrimento, um médico foi escolhido para então lhe aplicar veneno, mas isso também falhou. Por fim, foi colocado em uma banheira com água fervente, onde acabou morrendo sufocado e por desidratação. Alguns contam que sua morte foi um processo lento de pura agonia.


A acusação que definiu sua sentença de morte nunca foi provada, Sêneca não teve tempo suficiente para defender-se e também já sentia que isso não mais era importante. Sua própria vida e escolhas, a maneira rigorosa e meticulosa como vivia eram-lhe mais caras do que um embate com a inverdade. Entretanto, esse homem foi muito mais importante pelo que fez enquanto estava vivo e ativo, do que por sua morte trágica e dolorosa. Suas produções textuais, de importância inquestionável, deixaram um legado rico para a filosofia, principalmente em relação ao Estoicismo.


                                                                         “Os desgostos da vida ensinam a arte do silêncio.”


Apesar de todas as dificuldades que viveu durante toda a sua vida, Sêneca não se tornou um homem amargurado e nunca estava de mal com a vida. E aqui entra o mais importante para a nossa reflexão sobre os conceitos de fracasso e sucesso que conhecemos hoje: ele escreveu que os fracassos são inevitáveis, e que o grande segredo para ser uma pessoa feliz é saber lidar com eles, de maneira serena.


Para Sêneca não há mesmo como fugir aos problemas inesperados que nos arrebatam, por isso, é sábio estar sempre preparado para o pior. E se o pior não acontecer, devemos aproveitar para viver o momento ao máximo. Frustrações, desgostos, decepções? Todos os vivemos, e o segredo para superá-los é não ter raiva, nem ansiedade, não se tornar uma pessoa amargurada, nem abandonar-se à autopiedade. Muito longe da ideia de sucesso usual em nossos dias, para Sêneca, ter sucesso seria algo como manter a paciência diante dos problemas que fogem do nosso controle e fazer bem e com serenidade aquilo que depende realmente de nós.


Essa é a reflexão que eu quis trazer hoje, a todos.


                                                 "Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida".


Conta-se que Sêneca fazia um exercício: antes de dormir, listava suas frustrações, anotava os insultos que havia escutado ao longo do dia e todas as coisas desagradáveis que passara. Terminava a lista anotando como ultrapassara esses problemas.


São 21h52. Estou redigindo a lista do dia.