Carolina Vieira en Repórter Cultural, Comunicação e Jornalismo, Redatores Redatora e revisora linguística • AIEC 7/10/2016 · 5 min de lectura · +100

Sobre a Beleza e a representação na atualidade


Sobre a Beleza e a representação na atualidade

 

                    Durante os últimos 20 anos li mais sobre Arte e Literatura do que sobre História, Ciência, Tecnologia ou outra área. Sempre me interessei mais por Arte, pela Beleza, pelo conhecimento do que por qualquer outra coisa. Aprendi nos livros e em aulas, em palestras e conversas que a Arte muda de tempos em tempos, resgatando ecos de outras épocas, nuances, ritmos. Mas a Arte é sempre discutida como linguagem, como forma de conhecimento e expressão do mundo, como marca e fisionomia de uma época, embora seja intemporal. Mas, em toda e qualquer definição ou tentativa de conceituação, as artes (todas elas, da pintura à dança, da literatura ao teatro, da fotografia ao cinema etc) são a imaginação e o impulso vital do homem transmutados em um poder e em uma criação, e seu valor espiritual, estético ou material expressos na Beleza.

                    Beleza. Harmonia entre as partes. Ao pensar nisso, ao deparar-me com a Arte produzida hoje, talvez eu corra o risco de interpretar mal toda descontinuidade ou paradoxos produzidos por artistas que, ao mesmo tempo, me fascinam e incomodam. Não é o caso citá-los neste breve texto ou buscar exemplos que ilustrem minha perplexidade. Cada pessoa, a seu modo, também deve deparar-se com uma sensação semelhante ao ver um quadro, assistir um filme, ler um livro que o incomoda, que o faz estancar diante do que é produzido hoje. O que interessa neste momento é outro foco: o da Beleza. O que a Beleza representa e representou durante décadas, séculos ou mesmo desde que o homem fez a primeira representação no fundo de uma caverna, numa pedra, no chão.

                    Sempre que estou diante da verdadeira Arte, não importando qual forma de expressão foi escolhida pelo artista, percebo que a Beleza transparece como uma atmosfera, como um traço que não pode ser definido nem transcrito em palavras, e essa é verdadeiramente sua essência. Que mesmo a desvirtuação dos padrões ou os traços deliberadamente toscos podem revelar a Beleza, como nos prova a arte grotesca de tantos mestres, marcadas por desarmonia entre as partes, e o efeito psíquico que exercem pinceladas, rabiscos, suas manchas, suas deformações ou mesmo imagens monstruosas (como Goya, como Brüegel, como Fellini, como Greenaway, como Kazuo Ono e tantos outros) e ainda assim nos remetem à Beleza. Entretanto, durante todo esse tempo que estudei, observei, senti e encontrei momentos dessa essência, também percebi, paralelamente, que essa capacidade de expressar o Belo, com o tempo e o aprofundamento capitalismo global passa a dar lugar ao mercantilismo, à exploração de ideias, à comercialização em série.

                    Nem mesmo os ditos intelectuais, esforçados em divulgar e espalhar conceitos e verdades estéticas, nem estes percebem que a Arte continua a ser a essência do homem, pelo menos teoricamente, mas que a imagem da arte que se produz e se divulga na atualidade é sempre para vender alguma coisa. Os defensores do marketing dirão que a Arte sempre foi vendável e vendida, e sou obrigada a concordar, é claro! Mas não quero correr o risco dessa má interpretação: não é disso que estou falando. Falo do desaparecimento gradual da capacidade de expressar a essência (o Belo) numa sociedade imediatista e transformada em mercado livre, que é a nossa. Falo da insipidez, do vazio inessencial, da pressa em se produzir mais e mais para o mercado, falo da falta dessa atmosfera que transpareça o Belo, e talvez eu fale do que retrata o que hoje é a nossa sociedade. E então o discurso pode ser entendido como outro: que a Arte não mais está vinculada à Beleza, como nossa realidade não o está. Mas é óbvio que essa é a minha opinião, e muitos podem discordar dela.

                    Eu trabalho com palavras, e as palavras para mim estão permeadas desse mesmo universo narrativo de todas as artes. Esse pensamento sobre a Beleza e o atual estágio mercantil da Arte me foi despertado pelo fato de descobrir que todo o universo sempre foi narrativo e poético, mas que a atualidade cibertecnográfica [essa palavra existe?] não é nem narrativa nem poética. Quer queiramos ou não, nosso mundo mudou, e mudou para sempre: de um universo conceitual, vívido, belo e repleto de poesia transmutou-se numa realidade fragmentada, fragmentária, instantânea, imediatista, fake, insípida e grotesca. E, para que não me entendam mal, no meu entender é uma realidade repleta de uma insipidez e de um grotesco sem Beleza.

                    Dessas inquietações, contudo, há possibilidade de se visualizar um lado bom e um ruim? Talvez. Não quero parecer aterradoramente reacionária, ou deixar entender que abomino toda forma de aparato tecnológico-virtual da atualidade, ou que apenas renego o lado mercantil das coisas e objetos. Não é nada disso. Mas ao lidar com os livros, com a palavra, com a informação, eu começo a compreender minha necessidade de preservar, de agarrar-me à narrativa e à poesia que fazem parte de um mundo que começa a se distanciar, a se dissolver. Apenas essa essência e essa vitalidade podem me fazer entender quem sou e quem me torno à medida que o tempo passa e a realidade transmuta, para que eu transforme plenamente meu objeto de trabalho [a palavra] em algo, senão Belo, pelo menos útil para o mundo. E para entender quem você é e o que pode fazer é preciso estar lúcido.

                    Entretanto, não vivemos tempos de lucidez, vivemos a loucura exacerbada, a falta de sentido advinda de “sentidos demasiados”, pois somos bombardeados 24 horas por dia em nossas casas, nas ruas, em nossas mentes: esse excesso de informações torna-se uma espécie de droga poderosa, destruidora e onipresente. As pessoas parecem todas “anestesiadas” como se estivessem “em outra dimensão”, quase perfeita, e acreditam que são donas de si e que têm todo o poder da liberdade, da informação, da imaginação e da criação. Mas a realidade é outra.

                    O mundo tornou-se uma realidade fragmentada, sem personalidade, permeada por uma rede invisível em que coabitam e convivem verdades e mentiras num mesmo plano: essa rede gigantesca de informações entrelaçadas e implausíveis que se tornou o mundo a nossa volta só pode resultar em uma arte [e um mundo] sem Beleza, que nos deixa à deriva, insensíveis, apáticos, inertes. Tão inertes quando aptos a aprová-la, consumi-la, perpetuá-la sem sequer uma reflexão. Porque nessa guerra incessante de informações não há lugar para reflexão: as pessoas passam a viver como sonâmbulas, de maneira acrítica e passiva. A verdade é que a nossa realidade atual não nos envolve em momentos de reflexão, escolhas, consciência. Ela apenas permeia, penetra nossas mentes, corrói nossa vontade, destrói nossa imaginação, preenchendo com excessos todo buraco, todo vazio incessantemente. Não há lugar para limites, para consciência. Há excessos. Excessos. E mais excessos.

                    E por que escrevo essas coisas? E por que iniciei meu texto com uma reflexão sobre a Beleza e a Arte?  Porque sempre vivi num mundo em que existia tempo para reflexão, para contemplação, para apreciar a Beleza. A Beleza de todas as coisas. Era possível enxergar uma atmosfera no ar, havia uma vontade de melhorar o mundo. Havia Beleza e não apenas nas Artes, mas no cotidiano, nos ideais — até na feiura aparente havia Beleza. Por isso escrevo. E talvez porque levo tudo muito a sério. E não me creiam leviana: acredito realmente nisso. E creio que temos que desacelerar, parar diante desse excesso de informações e meditar se realmente queremos ser apenas consumidores passivos e insaciáveis.

                    Vislumbro um futuro estranho, onde não mais exista beleza, não mais existam ideias inteligentes. Onde reinarão apenas ideias vendáveis. Posso vender minha palavra? Posso vender meu rabisco de grafite? Posso vender minha ideia de mundo? Meu blog? Ele é vendável? Posso vender a poesia que há nos meus mais íntimos pensamentos?

                   Por pensar tanto e tanto, temo esse futuro. Porque a Harmonia e a Beleza podem talvez não resistir a essa fórmula de consumo pelos séculos virão.

                   Mas... será que apenas revelar o que se pensa de algo ainda interessa a alguém? É excitante? Não, não é. E a maioria das pessoas vive num mundo fictício, diga-se virtual, em que as outras vidas parecem sempre mais interessantes e excitantes que a própria vida. Passa-se a viver essas outras vidas [em geral a vida de pessoas célebres], e passa-se a esperar pelo que façam, pelo que representam, por seus desejos e realizações, esquecendo-se de viver a própria vida. Não é assim que funciona? Abre-se o jornal, a revista, liga-se a TV, pluga-se a uma tela, ao twitter, ao facebook, ao whatsApp e lá está estampada: a outra vida: a vida ideal: a vida fake, a vida de atores, artistas, políticos, personalidades, famosos uns e nem tão famosos assim, e em geral são vidas duplamente fictícias, pois que não representam aquela pessoa, mas a imagem pública dela!

                    E tudo se mistura ao reality show que se tornou o cotidiano, permeado pelo fútil, pelo prazer imediato, pelas desgraças, por escândalos e guerras, pela banalização do mal e da violência e muito pouco além disso. E o pior: não se sabe mais onde começa e onde termina a fantasia, a realidade, a encenação, a ficção. E chegamos ao ponto de as pessoas gostarem de viver essa falsa vida. E tudo é permitido. Válido. Deixa-se de viver com os amigos, para viver diante das telas, diante de aparelhos eletrônicos. Deixa-se de fazer algo pelo outro, para publicar um post sobre fazer algo pelo outro, e dorme-se com a consciência tranquila.

                   Diante dessas constatações, alguns ainda permanecem perplexos — como eu — e muitos tentam decifrar toda confusão, tentando tirar algo proveitoso dessas mudanças e desse caos fundamentado no hipercapitalismo, na propaganda, no consumismo. Mas, ao observarmos com certo distanciamento, parecemos todos personagens possuídos por uma loucura coletiva absurda e estranha. Vivemos num mundo desarticulado, fragmentado, no qual se misturam real e ficção numa junção assombrosa, no qual nos conectamos com uma quantidade gigantesca de informações que não são colocadas em prática, e no qual as relações de consumo deixam de ser escolha entre alternativas possíveis e passam a ser um processo de valores intrínsecos, e quem consome não pensa, consome sem critérios, apenas influenciado pela propaganda, pelo já definido como o melhor e pelo mercado e pelo capital.

                    E não há nenhuma Beleza nisso. No campo da comunicação e informação, as imagens [sejam verdadeiras ou fictícias] e as afirmações [sejam reais ou manipuladas] adentram o terreno do real, verdades e mentiras são transformadas em dados que se espalham rapidamente como um vírus, uma praga, um câncer cerebral. Infelizmente esse é o quadro real da atualidade. Não me entendam mal, pois estou avaliando o contexto a partir de uma visão macro. É óbvio que em uma visão micro há indivíduos muito mais conscientes e trabalhando contra essa corrente. O que quero dizer é que nossa atualidade, ou a forma como o atual estágio capitalista nos envolve e convence está articulada com essa fragmentação e esse excesso advindos das possibilidades expressas pelas novas tecnologias. E essa é uma experiência abismal e a maioria das pessoas não pensa sobre ela, apenas “segue a onda” consumindo e descartando, consumindo e descartando ad aeternum.

                    Essa é uma experiência incomum, é certo. Mas não é Bela. Na minha humilde opinião, é o horror sem fundamento. É a desarticulação de toda forma de narrativa e poesia, é a ordem abismal do imediatismo inócuo, sem precedentes na história humana. É o distanciamento do homem de toda forma de contemplação, de imaginação, do “parar no tempo para olhar, apreciar, contemplar”. É o distanciamento da reflexão e da identificação com o Belo. E, infelizmente, é o nosso momento. Essa é a fisionomia da nossa época. Se ainda esperamos encontrar a expressão do mundo como imaginação e impulso vital, transmutados em um poder e uma criação, devemos ser capazes de recusar essa ordem vigente, de rechaçá-la, negá-la para que possa surgir uma brecha, uma fissura por onde irrompa a essência, a verdade. E, quem sabe, a Beleza.



** Foto: Detalhe da Obra "Moça com brinco de pérola", 1665-1666, Johannes Vermeer.