Mauro Barbosa in Estudantes, beBee em Português, Professores e Educadores Escritor • Chiado Editora Feb 13, 2020 · 5 min read · 1.4K

CONTOS DA ESFINGE - ÚLTIMO CAPÍTULO - A DECISÃO

CONTOS DA ESFINGE - ÚLTIMO CAPÍTULO - A DECISÃO

O cenário estava montado. James acomodado na poltrona de costume, era o centro das atenções, no círculo formado pelos pais, sentados ao lado, seguido dos quatro cientistas convidados. Por fim, Dra. Michele, visivelmente desconfortável com uma situação totalmente nova para ela, se ocupava com os últimos detalhes, antes de iniciar a reunião. Uma conversação amistosa precedia a grande decisão que estaria por vir.
Eu observava sem ser visto. O que tanto preocupava aquelas pessoas e há anos tirava o sossego dos pais, era para nós, os invisíveis da reunião, um fato natural.

- Victor, poste-se ao lado de James, como de costume. Vamos começar – desfez meus pensamentos nosso dirigente. Estávamos em quatro. O mais experiente nesses assuntos de intercâmbio entre os dois mundos ou planos vibratórios, era Dr. Max. Eu me encontrava na posição de estagiário. Havia deixado o corpo físico há dois anos. Morri, para ser mais exato. Mas não de verdade. Só deixei o corpo. Morte é o nome que define a transformação que nos liberta do casulo da matéria pesada. Mas no mundo dos “vivos” é sinônimo de fim, o que apavora e aterroriza. É ainda motivo de ilações as mais variadas e assustadoras, dependendo dos costumes e crenças de cada grupo ou indivíduo.

No meu caso foi acidente de carro. Levei um tempo até entender todo o processo, mas aqui estou. Os outros dois eram assessores, se podemos chamar assim, do Dr. Max. A função principal que lhes cabia era higienização do ambiente. Limpavam as energias densas que causam tristeza, raiva, dúvidas, medo, etc., através de técnicas como a oração e passes magnéticos sobre os participantes que formavam o círculo. O trabalho não interferia na liberdade de pensar e agir de ninguém. Eram extremamente cautelosos a esse respeito. Foi uma das primeiras e mais importantes coisas que aprendi quando aqui cheguei. A nossa principal missão é ajudar, mas sem interferir na decisão pessoal do ajudado. Ou seja, nada era imposto, tudo sugerido com cautela, amor e inspiração positiva. Júlio e Amanda deixavam o  ambiente propício para que o trabalho fosse realizado com o mais alto grau de eficiência possível, obedecendo as leis naturais.  

- Vamos nos concentrar na mãe de James – orientou Dr. Max - O amor de mãe a faz sofrer demasiadamente pelo filho, que considera doente. Isto dificulta nossa ajuda nesta importante reunião. James aceitou sua difícil tarefa, definida com o nosso grupo, bem antes de renascer nesta família.
- Mas o pai – complementou Amanda com tranquilidade – igualmente nos parece em desequilíbrio.
- Sim – contudo está irredutível às nossas tentativas de aproximação, tanto pela inspiração, quanto após o sono, onde mais desperto o espírito, podemos nos aproximar. Lembra da última vez? – perguntou com olhar sereno, porém firme – Fugiu de nós como se fôssemos um grupo a assombrá-lo. Despertou agoniado. Contou à mulher que foi acometido por um terrível pesadelo. Resultado? Culpou James pelas preocupações que causava. 

Os encarnados na Terra, planeta expiatório, pensam que nada existe além deles, mas vivem uma vida dupla sem o saberem. Como espíritos imortais e com muitas experiências acumuladas, se agarram ao corpo transitório como se este lhe pertencesse pela eternidade. A noite, durante o sono, porém, muitos saem e não desejam mais voltar, por detestarem o fardo da vida que imploraram levar. Um dia compreenderão a verdade por trás deste véu, e seremos todos uma só humanidade. Até lá continuarão crendo e descrendo, mergulhados nas sombras da ilusão temporária da matéria. - Interrompeu a explanação, voltando-se para o grupo de encarnados sentados em círculo e suspirou, antes de prosseguir.

- A ciência avançou bastante, decerto. Contudo, há mistérios que ela tenta solucionar com louváveis esforços nas diversas áreas de atuação, mas que só o Amor poderá fechar essa equação no campo das ideias, encurtando as distâncias do infinito cósmico que a tudo domina. E as religiões necessitam fazer o mesmo, embora falem disso todo o tempo. Uma e outra vivem às turras por questiúnculas fomentadas pelo orgulho e o egoísmo que ainda imperam no Planeta Azul. O Amor unirá as inúmeras dimensões, as diferentes vibrações encontrarão a bússola que as levará a um caminho comum, tornando todos iguais em sua diversidade. Mas até esta complexa simplicidade ser entendida e, principalmente, sentida por toda a humanidade nos dois planos da vida, faremos a parte que nos cabe. E James é nossa missão de momento. 

Ele é apenas detentor de um sentido ainda pouco conhecido dos homens: a mediunidade. Esta capacidade de interagir com o mundo invisível nos será muito útil para encurtar as distâncias que mencionei. Presente nesta sala, há apenas uma pessoa apta a entender o que tratamos aqui – e apontou para o Dr. Laureano - Ele será a chave do nosso sucesso ou fracasso, na tentativa de não confundirem um médium com um louco, por pura falta de conhecimento e vontade. – Dr. Max interrompeu a elucidativa explanação, para mim ousaria a palavra extraordinária, iniciante que sou neste campo de ação. No entanto, não havia mais tempo para conjecturas. Se este era curto, o trabalho urgia.
- A mãe do rapaz – prosseguiu com ordens práticas - embora fragilizada, está mais suscetível e amorosa em relação ao filho. Isso nos será útil. E como disse, hoje contamos com um valoroso reforço.

James percebia, com alguma ansiedade, toda a movimentação que acontecia em nossa esfera de atuação, enquanto os outros se mostravam alheios e concentrados em suas ideias.
- Observem Dr. Laureano – comentou Júlio – vejam a luz que lhe sai do peito. Isso não é um bom sinal?
- Sem dúvida – completou Dr. Max – Ele, como falei, é o nosso reforço, a nossa voz. Sendo assim – continuou deliberando - quando chegar a vez dele falar, concentrem suas vibrações sobre a cabeça e garganta, no sentido de ajuda-lo com a ponderação necessária que a ocasião exige. 
- E Dr. Rony? Ele é um estudioso dos fenômenos paranormais. Também não poderá ser útil? – perguntou Amanda - Dr. Max cogitou antes de responder.

- Veremos no decorrer da reunião. Ele se interessa pelo estudo do que é oculto aos homens, mas sua atenção está voltada estritamente aos aspectos de ordem material. Ainda lhe falta amadurecimento moral para manter o espírito aberto aos novos horizontes da ciência.
- Que são inevitáveis – me atrevi, tentando ser útil.
- Certamente, Victor. Mas tudo a seu tempo. Não podemos forçar a natureza das coisas, interferindo no livre arbítrio do competente psiquiatra.

Fomos interrompidos por um estrondo. Entrou na sala aos brados, um espírito de aspecto sombrio e olhar enfurecido. Aproximou-se de James gritando impropérios. Apenas nós o víamos e ouvíamos. Os demais no plano físico somente sentiram sua presença, como um mal estar generalizado.
- É louco! Coloquem-no no hospício e deixe o resto comigo e meus amigos. É louco! – insistia correndo em torno do círculo para que todos o ouvissem. - O pai do rapaz agitou-se, assim como o próprio “paciente”. Cada qual sentiu a presença do antagonista a seu modo. 

Dra. Michelle, por exemplo, tentou iniciar a reunião, convencida que a melhor terapia para James seria a internação. Mas imediatamente nosso dirigente solicitou que Júlio e Amanda aplicassem recursos energéticos para que ela se acalmasse e nos desse um pouco mais de tempo. O que me intrigou profundamente foi o recém-chegado não me ver, tampouco aos meus colegas. Só percebia as pessoas no círculo que rodeava James. Dr. Max pôs-se logo a esclarecer-me, enquanto tentava lidar com a nova situação.

- Trata-se de um antigo desafeto de James e seu pai. Ambos, no passado, tiraram a vida desse rapaz e de outros, numa disputa por terras. O que você vê é a lei de ação e reação, ou causa e efeito. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. O desafortunado aqui presente só tem olhos para o que lhe interessa: a derrocada de James.
- E o que faremos? – perguntei aflito.
- Manteremos o nosso plano. Ele tem o direito de estar aqui. Faremos o possível para ajudar James. Este pobre sofredor possui um grande poder de influência sobre os pais do nosso protegido, o que os liga por afinidade. É uma situação delicada, mas por ora, nada podemos fazer.

O dirigente espiritual fez uma pausa, procurando solução para aquele inesperado impasse. E completou:
- Façamos o melhor e tenhamos fé.  No final, tudo está nas mãos do Criador de todas as coisas.
Foi neste exato momento que Dra. Michelle pediu a palavra. A reunião que decidiria o futuro de James teve início nos dois planos da vida.
FIM


“O amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço.” Dra. Brand, Filme Interestelar.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” Evangelho de João 14:2 - Allan Kardec: Capítulo III, O Evangelho Segundo o Espiritismo

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.”
William Shakespeare

“Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?”
Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, questão 459.

“Como distinguirmos se um pensamento sugerido procede de um bom Espírito ou de um Espírito mau?”
Estudai o caso. Os bons Espíritos só para o bem aconselham. Compete-vos discernir. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, questão 464.”