Mauro Barbosa in Profissionais Administrativos, Marketing e Produto, Livros Escritor • Chiado Editora Mar 31, 2020 · 1 min read · 2.9K

Quando ainda se podia sair em busca do Sossego perdido

Quando ainda se podia sair em busca do Sossego perdido

Confinado, escutando o barulho dos vizinhos, alguns entrando em surto, e tendo que lidar a base de mantras com uma obra ensurdecedora que resolveu invadir a quarentena, sinto-me sitiado pelo desassossego. Além de qualquer espirro, tosse ou pequeno mal estar, eu já achar que peguei o coronavírus. Coisas da mente e da mídia talvez. Como não sou dado a exercícios, prefiro livros e boa música, resolvi puxar pela memória, buscando um momento de liberdade e sossego. E não é que encontrei? Mesmo em meio a um certo caos no domicílio forçado, mergulhei naquele momento. Foi assim:

Estirado, lânguido sobre uma das diversas poltronas colocadas de forma harmoniosa numa confortável livraria instalada num grande shopping, folheava, com raro sossego, um exemplar de “O ato e o fato” de Carlos Heitor Cony.

Ao derredor, livros a mancheias e outros clientes encontravam-se como eu: indolentes nos diversos sofás aconchegantes da livraria. Estávamos à cata do que anda escasso neste mundo pandêmico: sossego. E nada melhor, para tal intento, do que estar rodeado por bons livros, luz no ponto certo, sem nada e ninguém para nos roubar aquele precioso momento.

Exceto um. Mas ele pode. E veio quebrando o raro silêncio que envolvia a nós, leitores ávidos por um pouco de paz nesses tempos de estranheza. Chegou, como se diz, chegando. Aquela agradável quietude foi interrompida por um ritmo que começou leve, mas que logo transformou-se num suingue irresistível. E eis que finalmente adentra o recinto aquela voz inconfundível, estrondosa feito um manada de elefantes descontrolada. E gritava “leva leva...”. Foi quando começou um tamborilar ali, outro pé se agitando aqui, uma senhora abraçando um livro, seu par para a dança inevitável. Sem sentir, arrebatado que estava, cantei “O que eu quero...sossego”.

Tim Maia, como de costume, invadiu o recinto, quando resolvia aparecer, claro. E que bom que ele veio justo naquele instante de indelével deleite. Aliado ao sossego dos livros, a música trouxe a alegria contagiante de sua voz inconfundível. Impossível ficar parado, pensei ao ouvir os primeiros acordes da segunda canção: “não sei por que você se foi...” E por um tempo indeterminado, soou àqueles privilegiados ouvidos, uma sequência quase divinal daquele que, em minha opinião de fã, foi uma das maiores vozes que já esteve entre nós. Sonora, alegre e, por mais paradoxal que seja, sossegada.

Ah! Quão bom é tudo isso. Livros e música. E não uma música qualquer, ou um livro qualquer. Estavam comigo Carlos Heitor Cony e... Aumenta o som que é Tim Maia. Então: Vale, vale tudo!

Feliz e sossegado, retornei à leitura deste notável escritor, que também já nos deixou. Pena. O mundo precisa de menos barulho dentro e fora de nós, mas carece, essencialmente, de leitura de qualidade e boa música. Tudo mais virá por acréscimo.