Sergio Weinfuter en beBee em Português, beBee en Español, Professores e Educadores Escritor • Editora Biblioteca 24 horas 11/3/2018 · 5 min de lectura · 3,5K

Culto ao corpo perfeito


Culto ao corpo perfeito

Imagem: http://noticias.universia.com.br/cultura/noticia/2017/12/04/1156724/funcionam-cotas-pessoas-deficiencia.html



Desde sempre os seres humanos não gostam de enfrentar o desconhecido, apesar da curiosidade inata e inerente ao espírito humano, poucos se aventuram além de sua zona de conforto e mesmo quando fazem, nem todos conseguem ficar ausentes por muito tempo dela.


Isso também se aplica ao diferente.


Em todos os tempos da história humana houve nascimento de pessoas diferentes, pessoas que não faziam parte da beleza padrão definidas pela sociedade e por isso elas eram constantemente excluídas. Nos tempos da pré história humana era uma questão de sobrevivência, as tribos precisavam de todos os membros para conseguirem sobreviver e por isso muitas delas, “descartavam” as pessoas que nasciam com algum tipo de deformidade. Era uma dura luta pela sobrevivência e para as pessoas com necessidades especiais uma sentença de morte.


Porém os tempos mudaram, o homem descobriu o fogo, construiu casas, aprendeu a plantar e estocar alimentos, assim conseguiam passar os rigorosos invernos aquecidos e alimentandos. Desta forma a sobrevivência para os humanos estava garantida, não precisavam sair em busca de alimento no inverno, pois haviam feito isso durante todo o verão e agora era somente descansar e se alimentar.


Com isso nasceram os primeiros assentamentos povoados que deram origem às primeiras cidades e o início do que conhecemos hoje como civilização. Não havia necessidade dos seres humanos continuarem na coleta de plantas e caça de animais para sua sobrevivência diária. Muitos animais foram domesticados e começaram auxiliar os humanos em suas tarefas diária. Outros foram criados para o abate, alimentando desta forma toda a tribo.


As lavouras floresciam e com a descoberta de metais e sua manufatura, começaram a fabricar coisas úteis para serem utilizadas em suas defesas ou ferramentas e utensílios para suas casas. Não havia muitas ameaças aos seres humanos e esses por sua vez começavam a povoar o mundo, transformando-se em seu maior predador. Não havia animais na terra páreo para fazer do homem sua presa natural e assim controlar o crescimento da espécie humana.


Com isso poderia se acreditar que os seres humanos evoluíram e não havia mais a necessidade intrínseca de eliminar um membro de sua espécie, por ter nascido com algum tipo de necessidade especial ou ter contraído alguma durante sua vida, devido algum acidente ou doenças que mutilou seu corpo. Mas não foi o que aconteceu. Diante das pessoas que não tiveram a sorte de nascerem “perfeitas”, carregando consigo algum tipo de deformidade e até as que contraíram algum tipo de mutilação durante suas vidas, não houve muito avanço.


Florestas no mundo inteiro são testemunhas desde a pré história da brutalidade humana. Muitos portadores de necessidades especiais foram deixados em seu interior para morrer. Outros foram mortos ao nascer e muitos deles foram oferecidos em sacrifícios para que suas tribos pudessem conseguir favores de algum tipo de deus. Com o inicio das cidades não melhorou em nada a condição das pessoas com necessidades especiais, muitas delas foram encontradas nas ruas mendigando, abandonadas por suas famílias, seus entes queridos.


A civilização Romana, uma das primeiras complexas civilizações do mundo também não tinham tolerância aos portadores de necessidades especiais. Cultuavam a beleza do corpo e não tolerava algum tipo de imperfeição. Em Esparta devido ao militarismo de sua civilização, uma pessoa portadora de necessidades especiais não tinha chance de servir ao exército e desta forma não havia valor para eles. Na Grécia antiga o tratamento não era muito diferente e o culto ao corpo continuava e as imperfeições eram logo deixadas de lado. Não havia valor para a vida humana, principalmente para um portador de necessidades especiais que era considerado um fardo para a sociedade.


Com o advento do cristianismo, sua pregação de tolerância, paz e amor era para que isso atingisse os portadores de necessidades especiais, mas não foi o que aconteceu. A própria igreja foi a primeira a ter preconceitos e não deixar pessoas portadores de necessidades especias rezarem missas. Pior que isso, eles não eram aceitos entre os demais, mesmo que fossem mais inteligentes que eles. A igreja que venho para unir, foi a primeira a segregar os portadores de necessidades especiais. Assim para eles o que restou foi às ruas, a mendigar, o sofrimento e a intolerância de seus semelhantes.


Na idade média acreditava-se que somente olhar para um portador de necessidades especiais, traria infortuno a família da pessoa. Os portadores de necessidades especiais passaram a margem da história humana, foram tratadas como párias, pessoas que não produziam, um peso para a sociedades e muitos acreditavam e ainda acreditam que elas nasceram desta forma como uma espécie de castigo divino. Por exemplo, entre os descentes dos índios peles vermelha americano ainda hoje eles não conseguem se sentir à vontade na presença de pessoas portadoras de necessidades especiais, O preconceito está arraigado fundo em sua cultura quase extinta e ainda sobrevive.


Com a criação de um mundo novo, grandes descobertas, vida moderna e a criação da produção em massa, também não haveria lugar para as pessoas portadoras de necessidades especiais, pois a indústria precisava de pernas e braços saudáveis, rapidez no raciocínio. Novamente os portadores de necessidades especiais foram relegados a segundo plano. Apesar de alguns terem se destacados, continuava o culto ao corpo perfeito, ninguém intercedendo pelos portadores de necessidades especiais.


Muitos deles recorreram ao circo para sobreviver, alguns se destacaram e fizeram grandes fortunas, mas a maioria não teve tanta sorte. É o caso de Isaac W. Sprague que “nasceu em Massachusetts, nos Estados Unidos, em 1841. Filho de um sapateiro e uma dona de casa, ele foi um bebê saudável e se desenvolveu normalmente até os 12 anos, quando começou a apresentar os primeiros sintomas de sua estranha condição.”(History, 2018 p.1)


Nessa época a sociedade preconceituosa e hipócrita dava poucas condições para a sobrevivência de um portador de necessidades especiais, acostumaram-se a vê-los como aberrações, algo que pertencia ao circo ou alguma exposição itinerante. Não havia respeito pelas pessoas e muito menos alguém ligava para seus sentimentos. Com isso Isaac estava condenado ao manifestar os primeiros sintomas de algum tipo de problema que comprometesse sua integridade física. “Ao entrar na puberdade, Isaac começou a perder peso e massa muscular rapidamente. Apesar de sua família ter consultado inúmeros especialistas, ninguém foi capaz de encontrar uma cura para a sua doença. O jovem passou a comer em grandes quantidades, mas, ainda assim, continuava a emagrecer.” (History, 2018 p.1)


Sem opções de sobrevivência (não podia entrar para a nascente indústria e nem para o exército) “Uma vez que sua fraqueza não lhe permitia executar trabalhos pesados, em 1865, Isaac entrou para um famoso show de aberrações, onde era apresentado como “o incrível esqueleto humano vivo”. Como encerramento do show, o homem se casava com “a mulher mais gorda do mundo”. (History, 2018 p.1) Não havia dignidade alguma para um ser humano ser exibido como se fosse um animal em um zoológico, mas era uma forma de sobrevivência, sua forma de sobrevivência, apesar do desrespeito do público.


Nesse mundo competitivo alguém com seu problema não tinha muitas chances de conseguir algo de bom com a sociedade de sua época. Sua fragilidade ficou evidente quando “Uma medida feita aos seus 44 anos detalha que Isaac possuía 1,68 metro de altura e pesava somente 19 quilos. Atualmente, acredita-se que o homem pode ter sofrido de um caso muito extremo de atrofia muscular progressiva.” (History, 2018 p.1) Com estas condições ele não sobreviveria ao trabalho braçal e brutal de sua época, sua saída foi fazer parte dos infames “entretenimentos” de uma sociedade com gosto pelo macabro e grosseiro. Não se preocupavam com as condições e necessidades dos seres humanos, seus semelhantes.


Infelizmente sua história não tem um final feliz. Exibido ao público como uma aberração durante boa parte de sua vida “Em 1868, ele abandonou o espetáculo após um incêndio que quase o matou. Casou-se e teve três filhos, nenhum com a mesma enfermidade. Isaac W. Sprague morreu pobre, aos 46 anos, em Chicago.” (History, 2018 p.1) Nasceu em uma sociedade onde não havia espaço para pessoas como ele portadoras de necessidades especiais. Não havia chance de felicidade em uma sociedade que continuava cultuando o corpo perfeito e repudiando tudo o que não se encaixava no perfil definido por ela.


Esse é somente um dos muitos exemplos da sociedade no tratamento das pessoas com necessidades especiais e ainda esta sociedade continua com o mesmo preconceito. São poucas as pessoas que não olham quando um portador de necessidades especiais chega em algum recinto. Algumas olham com repulsa outras com piedade, mas ninguém fica indiferente. Ainda cultua-se o corpo perfeito e o ser humano não se acostumou a olhar pessoas que estão foram do padrão definido pela sociedade atual, mesmo que este padrão seja deturpado alimentado por preconceitos.


Com a chegada do século XX, o descobrimento de novas tecnologias e o avanço da ciência com muitas descobertas que facilitam a vida dos seres humanos, para os portadores de necessidades especiais, melhorou pouca coisa. A sociedade continuou a olhá-los como um fardo e para piorar a situação, popularizou-se os circos e espetáculos com “aberrações humanas”. Em vez de serem respeitados passaram a serem expostos ao ridículo e desta forma humilhante muito ganharam seu sustento. Os esqueletos vivos se multiplicaram e passaram a fazer parte dos shows ao vivo dos milhares de circos existentes na época.


Em meio as duas grandes guerras apareceram milhares de pessoas mutilados por elas, aumentando o já enorme número de pessoas com necessidades especiais mendigando nas cidades. Com a tomada do poder pelo partido nazista alemão piorou a situação dos portadores de algum defeito de nascença ou que contraiu em vida. Milhares deles foram mortos e outros tantos utilizados para experiências sádicas dos médicos nazistas. Ninguém lutava por eles e todos os queriam exterminar, o culto ao corpo perfeito continuava em alta, mais do que nunca.


Hoje leis são criadas, mas nem elas conseguem amenizar a vida das pessoas que nasceram diferentes. Poucas delas conseguem um emprego decente, mesmo com as leis de cotas em vigor ou abatimento de imposto para as empresas que contratarem algum portador de necessidades especiais. Nem todos conseguem ser inseridos no campo profissional, principalmente se o problema precisar que mude o local de trabalho, adaptando ao profissional com necessidades especiais.


Várias empresas contratam os portadores de necessidades especiais, mas fazem de forma contida. Procurando abatimento nos impostos elas contratam, mas quase sempre deixam de fora os que precisam de maiores adaptações ao ambiente de trabalho, por exemplo, um cadeirante. Procuram mais por deficiência de intelecto, mas nunca procuram por alguém que perdeu um braço, uma perna, pois desta forma precisam adaptar o ambiente interno e isso custa caro. A sociedade ainda não aprendeu a conviver com as pessoas portadoras de necessidades especiais e sua epopeia continua ignorada, apesar dos avanços da civilização moderna.


A mentalidade humana precisa ser mudada e todos os seres humanos terem a plena consciência que os portadores de necessidades especiais não precisam da piedade da sociedade, mas de sua compreensão, não precisam de esmolas, mas de oportunidades e respeito. Dignidade acima de tudo é o que diferencia os seres humanos. Milhares deles são fruto do permanente preconceito que continua arraigado firme no seio da sociedade moderna. A silenciosa epopeia dos portadores de necessidades especiais continua e nem mesmo com todo o conhecimento e modernidade atual, a sociedade consegue respeitar as diferenças uns dos outros. O culto ao corpo perfeito ainda continua em alta e isso precisa mudar!


Para saber mais:

____A triste história de Isaac W. Sprague, o “esqueleto vivo” Disponível em:

https://seuhistory.com/noticias/triste-historia-de-isaac-w-sprague-o-esqueleto-vivo Acesso em: 18/02/2018



Sergio Weinfuter 11/3/2018 · #2

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Dorothy Cooper 11/3/2018 · #1

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