Sergio Weinfuter en Profissionais Administrativos, beBee em Português, Professores e Educadores Escritor • Editora Biblioteca 24 horas 20/9/2017 · 3 min de lectura · 1,3K

UMA SÉRIE DE PORQUES...


UMA SÉRIE DE PORQUES...


                                         Imagem: http://teleblognews.blogspot.com.br/2015/04/perguntas-modo-de-fazer.html




André de sete anos sentando no sofá ao lado de seu pai no conforto de sua casa, sem prepará-lo perguntou de supetão:

Pai quando vamos morrer?

Oque? Perguntou o pai assustado sem acreditar.

Quando vamos morrer? Perguntou outra vez o garoto.

Não sei – conseguiu responder o pai com um fio de voz.

Não contente o garoto voltou a carga:

Por que todos morrem?

Porque é a vida.

Mas a vida é a morte?

Não, a vida é a vida e a morte é o fim da vida.

Mas por que todos tem que morrer.

O pai pacientemente explicou para seu filho que as pessoas nascem, depois elas crescem, um dia casam, formam suas famílias, envelhecem e por fim morrer no processo normal do envelhecimento. Dessa forma acreditou que havia respondido a pergunta de seu amado filho, mas para o garoto ainda não havia chegado ao fim de suas perguntas e voltou a perguntar:

Mas se todos nascem, crescem, envelhecem e morrem, porque tem tantas pessoas pequenas que morreram?

Algumas morrem cedo.

Por quê?

Elas sofreram algum acidente, tiveram algum tipo de doença e morreram.

Mas por quê?

Porque essa foi a vida delas.

Por que viveram tão pouco?

Nunca pensei nisso.

Por quê?

Foi a vontade de Deus – Falou o pai pensativo finalmente. Havia dito para o filho pensar sobre a vida desde cedo, mas não tinha previsto que algum dia ele teria que responder perguntas que não sabia e nem tinha pensado sobre elas.


Em sua inocência André mesmo sem querer colocou seu pai contra a parede e começou a perguntar sobre um dos grandes mistérios da vida. Porque as pessoas morrem cedo, morrem novas, morrem sem ao menos terem chance de crescer. Foi essa a pergunta, mas poderia ter sido tantas outras e apesar do pai incentivar seu filho a pensar, ele próprio não estava preparado para as respostas que tinha que dar, sobre as questões levantada por seu filho.


Porém isso não é somente uma deficiência do pai de André nessa história fictícia, mas uma dificuldade de nossa sociedade atual. Ninguém é preparado para perguntar, somente é preparado para ouvir, não para dar sua opinião ou resolver questões que o estão incomodando. Não somos uma sociedade de questionadores, nem de pensadores, somente nos acostumaram a executar o que nos foi ordenado sem questionar.


Mas quando aparece alguém questionando, com uma série de porquês para serem respondidos, invariavelmente não é bem recebido e dizem que está perturbando a ordem geral do lugar. Nas escolas sempre tivemos que ouvir os professores falarem enquanto nós alunos escrevíamos o que nos mandavam, se alguém questionasse o professor mandava ficar quieto, quase nunca respondia as perguntas difíceis ou faziam como o pai de André: é a vontade de Deus.


Nas empresas também acontece muito disso, principalmente em reuniões que quase sempre são de um falando e os demais escutando, não há espaço para mais alguém falar, não há tempo para escutar a opinião dos demais. Um fala e todos ouvem. Um fala e todos executam cegamente, sem questionar, mesmo que esteja errado, ninguém se atreve a falar.


Lembro-me de uma reunião de negócios que participava em uma grande rede onde trabalhei. O supervisor reunia seus líderes de setor duas vezes ao ano e com eles tentavam melhorar a administração do setor nas diversas filiais. A princípio ele incentivava todos os líderes a darem suas opiniões e segundo falava, queria que todos participassem ativamente de suas reuniões.


Seria uma quebra de protocolo se as reuniões fossem dessa forma na prática. Participei de algumas dessas reuniões e em uma dessas vezes havia um novo líder de uma filial recém-inaugurada. Com pouca experiência o líder estava empolgado em participar de sua primeira reunião geral e começou a fazer uma séria de perguntas, todas pertinentes a sua área e filial.


No decorrer da tarde enquanto a reunião prosseguia, o líder continuava empolgado fazendo suas perguntas, mas em um dado momento a atmosfera da reunião mudou. Enquanto o supervisor falava sobre mais um tema o líder levantou sua mão para perguntar como fizera por toda a manhã, mas baixou rapidamente ao ouvir a voz do supervisor dizendo em alto e bom som:


-Baixe &%$#@! dessa mão, porra! Passou a manhã toda perguntando e agora quer perguntar de novo? Vai @#$%¨&()! se não tiver mais o que fazer!


Ninguém mais ousou perguntar algo naquela reunião e o líder não se enterrou em sua cadeira porque não tinham como fazer. Ele nunca mais participou de uma reunião e em pouco tempo pediu demissão da empresa. Com esse episódio e tantos outros vivenciados percebi o quanto nossa sociedade é educada a somente ouvir. Um fala e todos executam. Um fala e todos obedecem, mesmo que alguém tenha uma pergunta ou ideia brilhante, todos são sufocados e somente uma pequena parcela de escolhidos, podem expressar suas opiniões.


Os grandes pensadores são sufocados, as grandes ideias não saem do papel e a sociedade em geral não vai além da primeira série de porquês. Ninguém foi preparado para pensar mais a fundo, pensar no porque que tem que ser dessa forma, porque que isso tinha que acontecer, porque aconteceu e porque não devia acontecer. Somente pensamos nos primeiros porquês, não vamos além, não pensamos fora de nossa zona de conforto e muitos tem até medo de saberem as respostas.


Porém quando alguém pensa fora de sua zona de conforto, pensa um pouco além, pode ser sufocado pela opinião geral, mas se conseguir falar sobre suas ideias, fazer com que elas sejam aceitas e executadas, quase sempre estaremos diante de uma grande inovação, algo que poderá mudar o mundo para sempre. Se isso algum dia acontecer com toda certeza mudará nossas vidas, nossa empresa, nossa comunidade, nosso bairro e é isso o que realmente importa.


Precisamos pensar fora de nossa zona de conforto, pensar além do que fomos ensinados, questionar, perguntar e não se conformar com as respostas meia boca que recebemos. Precisamos saber as respostas de nossas questões mais a fundo, não se contentar com respostas superficiais e vazias. Procurando a verdade, pensando na enorme possibilidade de transformação e não abaixando a cabeça na primeira dificuldade que aparece. Precisamos questionar mais e sermos fortes para ouvir a verdadeira resposta de nossas séries de porquês.


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