Tifany Rodio en beBee em Português, Professores e Educadores, Educação e Formação Content Manager • beBee 20/9/2016 · 5 min de lectura · 3,0K

Uma nova era para a educação - Entrevista com Denise Da Vinha Ricieri

“Muito prazer, sou movida a projetos!”. Assim se apresenta Denise Da Vinha Ricieri no início da entrevista. Não tive dúvida de que estava conversando com uma mulher forte e decidida, confirmando o que ela já tinha mostrado em seus textos no Producer


Denise é professora e tem longa estrada como pesquisadora. Antes de mergulhar no mundo acadêmico, passeou por outras áreas: fez ensino médio profissionalizante em desenho de arquitetura e se formou e especializou em Fisioterapia Cárdio-Respiratória. Uma bela mudança de rota que, como ela diz, foi a primeira grande decisão de sua vida.


A entrevista com esta grande profissional ficou tão rica que resolvi dividi-la em duas partes. Todos nós já fomos alunos, e com certeza adoraríamos que nossa experiência nas salas de aula tivesse sido pelo menos parecida com a que defende nossa entrevistada. Se você é professor, fica a dica: inspire-se com este ponto de vista diferenciado sobre a educação.


Parabéns, Denise! Quem dera todos os nossos educadores tivessem o mesmo brilho nos olhos que você :)


Uma nova era para a educação - Entrevista com Denise Da Vinha Ricieri


1) Neste texto você comenta que ensinar deveria ser um processo de gerar emoção. Você acredita que o sistema educacional vigente, de uma maneira geral, peca neste sentido e oferece uma metodologia pouco atraente para seus alunos?


O atual cenário do Ensino (de ensinar, não de educar) é pautado na massificação da informação (e não na formação), na despersonalização das competências e inteligências individuais (em prol de mais conteúdo em menos tempo, em salas de aula sempre presenciais), e em um produto chamado de diplomação (em detrimento do processo, chamado formação de competências). 


Nesse tipo de cenário do atual ensino não há espaço para nada que seja individual, emocional.


Por essa razão, quando a geração Y encerrou seu período em sala de aula (hoje com idades entre 25 e 35 anos), dando lugar às novas gerações (Z, Millenium), os professores e profissionais ligados a toda essa estrutura educacional convencional, ao redor do mundo, começaram a se incomodar com a indiferença do estudante, sua total falta de aderência àquele modelo professor (quem professa o conhecimento) versus aluno (a=sem, luno=luz, ou seja, o ser sem luz que deve ser iluminado pelo saber professado na sala de aula).


Os nascidos entre 1980 e 1990 são os migrantes da tecnologia, ou seja, aqueles que hoje têm entre 25 a 35 anos de idade. Eles cresceram entre games, internet e mundos digitais, mas ainda tiveram boa parte da educação pautada nos velhos modelos. 


O modelo vinha, sim, pecando (e muito) nesse sentido, até cerca de 5 a 8 anos atrás. Felizmente, essa Geração Y ajudou a começar uma rota de mudanças que culminou nos últimos 2 anos em novas visões para a incorporação ativa das tecnologias nos modelos educacionais (de educar, mesmo!). 


Embora ainda haja um longo caminho a percorrer em termos de transformações...

...dessa sala de aula (a vista bonita não muda a essência)...

Uma nova era para a educação - Entrevista com Denise Da Vinha Ricieri

...para essa sala de construção de conhecimento.

Uma nova era para a educação - Entrevista com Denise Da Vinha Ricieri

Acredito que os educadores de hoje já tenham uma certeza clara: emocionar-se não é piegas. É uma questão de identificar-se com o processo de aprender-a-ensinar para que o estudante tenha a oportunidade de desenvolver seu aprender-a-aprender.


2) É possível que o professor, como uma peça-chave neste cenário, faça diferente? Quais seriam as estratégias básicas para atrair o interesse do aluno?


Fazer diferente para fazer a diferença é regra fundamental nesse novo cenário. Mas o problema, muitas vezes, não é uma resistência do professor ao novo, e sim, sua inabilidade e desconhecimento de como lidar com o novo, estando do “lado de cá da sala de aula”.


Deixa eu ilustrar: você, eu, a maior parte daqueles que têm 30 a 35 anos, ou acima, tivemos um padrão de aulas, um padrão de condutas para aprender, seja nas escolas, seja na faculdade/universidade. Era o modelo professor-centrado. Dentro desse modelo, você, eu, ou qualquer outra pessoa que tenha frequentado uma graduação até cerca de 8 anos atrás, conhecemos bem como reproduzir esse modelo.


Se você é chamada para uma palestra, intuitivamente sabe como se dará o “rito”. Eu também. Na insegurança, essa é uma zona de conforto importante. Todo ser humano se abriga em zonas de conforto, reproduzindo os comportamentos que conhecem bem, e evitando os cenários e situações que lhes foge à experiência e compreensão.


Desde sempre, vimos o professor como aquele sujeito “que detém o saber”. O cara super-hiper-mega-top-fodástico, em uma ou outra área. 


Ele (professor) sabe e gosta disso, e talvez até tenha optado pela docência porque também admirava um professor assim e, por isso, quer seguir os passos. Reproduz o modelo com perfeição. Diante de uma plateia e com sua “reputação de notório saber” em jogo, qualquer um vai se poupar de fazer aquilo que não sabe como controlar ou onde vai terminar. É aí que começam os problemas da transição tecnológica.


Esses professores (muitos foram meus estudantes na graduação ou na pós-graduação) sentem-se “seguros” no velho modelo, ao mesmo tempo em que não conseguem compreender como aplicar novos modelos


Esse lack na compreensão pode ter várias raízes, como necessitar de tempo extra para preparar material extra (em geral eles dão aulas em muitos lugares para melhorar a remuneração), acreditar que precisam saber tudo o tempo todo (velho modelo, lembra?) e, principalmente, para assumirem que precisam de uma nova capacitação


Olhando empaticamente, sua visão (formatada pelo velho modelo industrial) é a que “professores que precisam aprender, não estão prontos para ensinar”. Esse conceito do super-professor vem sendo frontalmente derrubado pelas novas metodologias educacionais, centradas na aprendizagem do estudante e isso, para alguns, é inadmissível. Ego ou não, a expressão “professor” cristaliza a essência do “poder da informação, do conhecimento”, um conceito bastante arraigado e difícil de mudar em curtos períodos de tempo, como 8 ou 10 anos. 


Tens aí o primeiro problema: o professor é sim a peça chave para mudar todo o sistema. Mas não, não é fácil convencer uma classe muito bem estabelecida, de profissionais do conhecimento, de que as formas de conhecimento mudaram e que eles também precisam mudar, se não há estímulos extrínsecos para tal.


Nesse contexto, é muito frequente ouvir: “o estudante não quer assumir seu papel de protagonismo na aprendizagem”, ou “para o estudante está bom como está, mudar dá muito trabalho e ele não colabora”. Ouço isso o tempo todo. Mas na contramão dessas afirmações que escuto, todas as vezes que tenho oportunidade de falar sobre o assunto metodologias ágeis e criativas e tecnologias educacionais motivadoras, tenho a minha experiência e a de muitos colegas que resolveram transformar-se para transformar suas turmas. Nossas experiências mostram o contrário.


Nossos estudantes se engajam (e muito!) no processo de transformação da sala de aula. O que haveria de diferente? Teríamos nós ferramentas alucinantes, performances arrebatadoras em sala de aula, ou dispositivos especialmente planejados para atrair a atenção e o engajamento (principalmente) dos nossos estudantes? A resposta parece ser: não, nós nos engajamos também no processo.


Mostre seu engajamento antes de exigir o engajamento dos estudantes. Prepare materiais diferentes (dá trabalho), abordagens diferentes (dá trabalho), dinâmicas diferentes (dá trabalho). 


Sim, dá trabalho. Mas a questão é: o quanto de trabalho um professor julga ser o limite da suficiência para alcançar resultados memoráveis? Quando um estudante percebe que sua aula “deu trabalho” para montar, ele não foge à luta se você exige, em troca, que ele seja mais ativo e protagonista (ou tenha mais trabalho) para interagir em novos modelos de formação.


É uma conquista contínua, constante e progressiva. É uma grande parceria. Eles (os estudantes) valorizam muito isso, porque sentem-se diferenciados, sentem-se privilegiados. Afinal, “aquele professor” montou algo fantasticamente diferente, especificamente para eles, para a sua turma, as suas necessidades de aprendizagem, as suas expectativas de construção do conhecimento. E eles retribuem, e crescem, e a aprendizagem torna-se um processo que reúne competências, habilidades e atitudes (além das avaliações), e não um produto (a nota da prova).


A meu ver, e pela minha experiência, essas são as únicas ferramentas que qualquer professor precisa para transformar os resultados nas suas turmas: personalizar empaticamente suas abordagens, turma a turma, e mostrar seu próprio engajamento para conquistar (isso mesmo, CON-QUIS-TAR) o engajamento da turma. Veja este relato, com meus estudantes do semestre passado.


3) Descreva o que, para você, seria uma sala de aula ideal.


Na minha primeira resposta dei uma ideia dos formatos de sala de aula. Então quero dar uma mãozinha para os colegas professores que “engasgaram” no meio do caminho da transformação e desistiram, achando que não é possível reverter uma sala de aula convencional em uma sala de aula inovadora.


Se você tem um projetor, uma tela, algumas paredes onde possa afixar atividades orgânicas (feitas à mão), carteiras livres que possam se mexer e serem agrupadas de formas diferentes, um sinal de wifi razoável (o sinal do meu bloco didático na universidade muitas vezes falha, mas #tamujunto) e muita, mas muita vontade de fazer acontecer a diferença, então você tem o que precisa para começar.


“Comece onde você está. Use o que você tem. Faça o que você pode.”
Arthur Robert Ashe Jr. (tenista EUA)


Então, meu conselho para cada professor montar sua sala de aula ideal é: pare, olhe para o que tem, e transforme esse recurso e esse material em uma sala de aula ativa, dinâmica, inquietante e desafiadora para seus estudantes. O restante vem, como consequência.


Claro que as possibilidades são muito maiores quanto maiores forem os recursos! Um Fab Lab é o meu sonho de consumo, enquanto professora, com impressoras 3D, alguns simuladores digitais e acesso a materiais que converteriam todas as minhas aulas e atividades em experimentos! Uau!


No fundo, no fundo, acredito que a empatia é o que faz qualquer coisa se transformar na vida, incluindo a sala de aula. E como também acredito que é possível realizar cada sonho, passo a passo, é preciso sair do lugar com o que se tem


Meu trabalho chamou a atenção dos colegas docentes do meu Instituto, e já consegui algo muito difícil: espaço físico para montar uma sala de aula “diferente”. Agora, o projeto está em busca de patrocínio (trabalho em uma universidade federal, pública e sem recursos para esse tipo de investimento) da iniciativa privada que queira contribuir para a formação de profissionais mais engajados desde os bancos da universidade, para montar meu Fab Lab.


Uma nova era para a educação - Entrevista com Denise Da Vinha Ricieri


Esta é a primeira parte da entrevista com a pesquisadora e educadora Denise Da Vinha Ricieri, leitura obrigatória para todo profissional da área do ensino :) A segunda parte, que será publicada em breve aqui no Producer, é imperdível para os PAIS que apostam na educação dos seus filhos! Afinal, ela é mãe de 4 filhos e tem muita experiência pra contar. Fique de olho!


Denise Da Vinha Ricieri 28/9/2016 · #18

#17 obrigada Paulo! ✌🏼️🐝

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Paulo ROBERTO SANTOS 28/9/2016 · #17

O que nos anima é saber que na educação existem pessoas inquietas e com vontade de mudança como a Denise!

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Esta comentario ha sido eliminado

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#12 @Denise Da Vinha Ricieri será um prazer dividirmos um café e uma boa conversa! []'s

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Isabel Díaz Durán 21/9/2016 · #13

Boa entrevista Tifany!! Achei a Denise uma pessoa muito interessante e com muita força por mudar as coisas no mundo do ensino. Acho que ela terá sucesso no que se propor!Saudações

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Denise Da Vinha Ricieri 21/9/2016 · #12

#11 @DILMA BALBI sou ré confessa: não acredito que velhos mapas levem a novos mundos, mas aprendi que esses velhos mapas, um dia, levaram nossos antecessores até o ponto onde estamos. Nossa missão é descobrir novos mundos, atualizar os velhos mapas, e motivar os exploradores do futuro! Obrigada por aparecer aqui... Bora marcar um café na próxima! ✌🏼️☕️

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@Denise Da Vinha Ricieri professando duplamente.. professando a fé no ensino e professando o conhecimento para fazer acontecer.. bacana a entrevista, obrigada @Tifany Rodio

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Denise Da Vinha Ricieri 21/9/2016 · #10

#8 Valeu Carlos! Obrigada ✌🏼️

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