Túlio Ratto in Poeme-se, Repórter Cultural, Comunicação e Jornalismo Chargista • Comunicação Aug 12, 2016 · 5 min read · 1.0K

O APAIXONADO ARIANO SUASSUNA

O APAIXONADO ARIANO SUASSUNA

A entrevista que compartilho com vocês — e que entrevistado, hein? — nós fizemos no ano de 2008. Um momento ímpar, de muita alegria pra mim, afinal, estávamos ali, na Via Costeira, em Natal, com o poeta, escritor, dramaturgo Ariano Suassuna. Confesso que sempre fui e sempre serei fã de carteirinha da genialidade do nosso saudoso e inigualável Ariano. Veja aí como ficou:



Por Túlio Ratto e Ana Cadengue

Fotos: Karl Leite

Arte: Túlio Ratto


O nosso entrevistado nessa última edição de 2008 dispensa comentários. Mesmo assim, a título de informação, dizemos o que todos já sabe. Ariano Vilar Suassuna nasceu na cidade da Parahyba (hoje João Pessoa), em 16 de junho de 1927, atualmente mora em Recife. É escritor, dramaturgo, poeta, estudioso dos movimentos populares nordestinos. Considerado o maior prosador vivo da Literatura Brasileira, autor, dentre outras obras, de “Romance d´A Pedra do Reino”, o “Auto da Compadecida” é mm contador de histórias que sempre lota teatros por onde passa com suas aulas-espetáculos.


Casado há 61 anos com dona Zélia (que sempre o acompanha pelo Brasil), Ariano nos recebeu no Hotel Barreira Roxa, em Natal para essa entrevista. Atencioso, simpático, preliminarmente, nos fez um pedido: “não puxem demais desse velhinho, pois minha garganta depois de ontem está só o bagaço” (risos). Ariano havia feito uma palestra para uma platéia que lotou o teatro Alberto Maranhão, dentro da Feira de Ciências e Tecnologias realizada pela Fapern.

A revista Caros Amigos, certa vez, entrevistando Ariano, escreveu que “não dá pra lhe entrevistar sem falar do Movimento Armorial”. A Papangu discorda desse pensamento, até por saber que aqueles que se dispõe a ler uma entrevista com o mestre Ariano já sabem dos seus prazeres dessa linguagem escrita, pintada, cantada, dançada, que está para completar vinte anos.


Entretanto, o que gostaríamos de focar era o lado escritor, poeta, dramaturgo e humano.


Boa entrevista, leitor!


O APAIXONADO ARIANO SUASSUNAAriano, como um homem que passou a vida pesquisando as raízes populares do nordestino, afirma que é avesso totalmente à ciência e pesquisas?

Veja bem, não considero-me um pesquisador. Porque eu não sou, realmente, um estudioso sistemático. Nunca tive afinidade com as ciências comuns. Eu disse que me identificava muito com os grandes pensadores. Eu sou escritor que, por acaso, tem interesse por essas manifestações populares da nossa cultura. Desde menino, assim que me aprendi a ler, tornei-me um leitor voraz. Eu tive a sorte de encontrar uma coisa que não é muito comum hoje em dia no Sertão, Imaginem na década de 30, que era uma biblioteca. Meu pai era um grande leitor. Diga-se, ele me deixou uma biblioteca muito boa. Ele era amigo de um estudioso das tradições populares, chamado Leonardo Mota. Eram muito amigos. Inclusive, um dos livros de Leonardo Mota foi dedicado ao meu pai. Um dos textos do livro dizia que João Suassuna era um profundo conhecedor e que tinha uma memória prodigiosa. E tinha mesmo! Então, eu peguei os livros de Leonardo Mota e comecei a me interessar pela leitura. Naquela ocasião, eu já ouvia cantadores mas o livro viria a ser como um objeto quase sagrado — era a grande encantação da minha infância. Quando eu lia os livros de Leonardo Mota eu via que aqueles cantadores que me despertavam tanto interesse eram objetos dos livros. Então era uma coisa importante. Para vocês terem uma idéia, para escrever o Auto da Compadecida, eu me baseei em três folhetos, todos três estão citados no livro de Leonardo Mota, intitulado “Violeiros do Norte”. Por isso é que digo: eu não sou pesquisador. Eu sou um escritor que se interessou por esse tipo de coisa desde muito menino. Leio por prazer e como fonte do meu trabalho como escritor. Comecei a escrever com 12 anos. Escrevi algo que achei horroroso — nem o chamo de conto. Meus irmãos até caçoaram de mim. Mas era a pura verdade porque comecei no teatro a escrever tragédia, passando a escrever comédia no início dos anos 50.

Há um pensamento generalizado, inclusive na Acadêmia, de que a ciência são as ciências duras. As ciências exatas, elas perderam um pouco aquele orgulho, aquela empáfia. Gostaríamos que o senhor falasse um pouco do seu entendimento de ciência.

Em primeiro lugar, a ciência no século dezenove, havia uma tentativa causada pelo proselitismo, de encarar, identificar a ciência, só a verdade. Quer dizer, a ciência representava a alguns para o futuro, e o resto das coisas eram consideradas obscurantismo, misticismo. Nos séculos vinte e vinte um, descobriu-se, apavorados, que a ciência tinha, inclusive, um “monstro” dentro dela. Quando de repente, a gente vê um cientista como Carlos (?) — eu cito ele em minhas palestras —, você nota que o conhecimento de Heinstein levou a uma das paródias da instituição. Cito uma ciência mal dirigida o caso dos Americanos jogando a bomba atômica. É preciso que os cientistas vejam que a ciência é uma faca de dois gumes. O progresso moral do homem, a luta pelo desenvolvimento cientifico e tecnológico, isso pode virar um monstro. Os próprios físicos e matemáticos chegaram à conclusão de que aquelas “verdades” deles eram aspectos parciais.

O senhor se define como um “Contador de Histórias”. Qual a sua melhor História?

Se lhe disser qual a minha melhor, eu estaria declarando que todas as minhas histórias são boas e que uma é melhor que a outra. Não. Eu posso lhe dizer o meu trabalho preferido: de tudo que publiquei, o meu predileto é o romance “A Pedra do Reino”.

Segundo matéria do jornalista Eduardo Miranda — o senhor homenageia em suas aulas-espetáculos —, publicada na imprensa paulista, "O grupo Calypso tem a cara superbrega do povo brasileiro. Já o guitarrista Chimbinha é genial. Para Ariano, qual a cara do país?

Se você quiser ver a cara do país, eu recomendaria a leitura de Euclides da Cunha, Lima Barreto, Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Ouvisse a música de Villa lobos; e visse as esculturas de Aleijadinho. Essa é a cara do Brasil.

O senhor então acha que essa vênia de mau gosto é decorrente da falta do contato do jovem com a leitura?

Isso é decorrente, a meu ver, do capitalismo. O capitalismo é um regime político que tem seu fundamento no lucro. O que dá lucro eles procuram virar lucro e não o que é bom para o país, o que é de bom gosto. Procuram nivelar a arte pelo gosto médio, que para mim, é a pior coisa que pode acontecer. Eu prefiro o mau gosto ao gosto médio.

O senhor afirmou que é preciso muito mais fé para acreditar em Darwin do que em Adão e Eva. Mencionou também que há uma centelha Divina na inteligência humana. Qual a sua relação com o Divino?

Eu tenho uma visão religiosa do Mundo. Porque eu digo isso, não quero dizer que sou um religioso exemplar, não. Por fundamento da minha religião tenho como base o Cristo. Eu acredito no que Cristo disse. E vivo muito distante do ideal de Cristo. São Francisco de Assis era o ideal para Cristo. Eu, infelizmente, não chego nem a um centésimo do que ele fazia. Para mim, a divindade é a explicação. Eu gosto muito de uma frase de um escritor Espanhol que diz: “Deus é um absurdo que explica todos os absurdos”. Agora, sou contra a arte política, também sou contra a arte religiosa ou contra a arte filosófica. Acho que as idéias políticas, religiosas e filosóficas do autor podem sair e devem sair no que eles fazem, mas não que ele coloque a sua obra a serviço de nenhum pensamento, seja religioso, seja filosófico ou seja político. E, preste atenção, desde o momento que passei a adotar uma visão religiosa do mundo tenho a impressão de que isso começou a aparecer. Por exemplo, em “A Pena e a Lei” você ver essa visão religiosa do mundo; no “Auto da Compadecida, “Casamento Suspeitoso; “O Santo e a Porca, a primeira figura é o Santo, notou? Então, eu acho que no meu teatro todo está presente, no próprio romance “A Pedra do Reino essa visão religiosa também está presente.

O seu bom humor é notório. O senhor é um grande “tirador de sarro”, gozador?

Não me sei julgar. É difícil. Sou uma pessoa bem humorada e isso me diverte muito.

Como foi essa história de ir parar no Youtube. O que o senhor acha dessa nova popularidade alcançada. Antes pela Obra, adaptações. Agora como cantor de funk?

Eles ironizaram uma declaração minha e ficou bem humorada, engraçada. Mesmo quando as pessoas falam de mim, o que não foi o caso — eles nem falaram mal de mim — eles apenas fizeram ironia. Mas quando as pessoas falam com espírito eu não me zango, acho graça. Certa vez um cidadão teceu comentários a meu respeito, não direi o nome em respeito pois ele já morreu, disse que “dos nordestinos nefastos ao Brasil, já morreram Antonio Conselheiro, Lampião e Padre Cícero, só falta agora Ariano Suassuna”. Eu quase morria de rir (Risos). Entretanto, vingativo como todo sertanejo, em todos os cantos que eu chegava eu dizia “esse cidadão é um incompetente. Ele disse isso para me insultar e me deixou orgulhoso. Eu nunca pensei que fosse tão importante. Ser comparado a um profeta, um Santo e um guerreiro ao mesmo tempo, me envaideceu (risos).

Como Ariano quer ser lembrado pelas próximas gerações. Como escritor, poeta, “cantor de funk”?...

Como escritor. Como dramaturgo, eu consisto em poeta que sou. É assim quero ser lembrado.

Quando o senhor fala sobre da vida, preconceitos e intelectos, da grande arte, da ciência, o senhor listou algumas coisas que nós batizamos de “Teoria do “I”, pois o senhor partiu da inquietação, intuíção iimaginação, indagação... Não sabemos se foi intencional.

É verdade. (risos). Isso é até algo novo. Começa tudo por i.

Ariano agora pode também será conhecido como o autor da “Teoria do I”. Mas é da inquietação que surge tudo?

Não é nem que a gente tenha que ser. Nós somos obrigados, porque o ser humano é assim mesmo. A todo um programa de anestesia pra tirar essa dúvida natural. O humano precisa ser anestesiado, seja através da arte, dos meios de comunicação. De tudo. Tirar essa inquietação, essas dúvidas naturais.

O senhor namora a mesma mulher há 61 anos. E, como ela sempre o acompanha, sempre ouve as mesmas histórias desde então?

É verdade. Há 61 anos. Coitada (risos).

Mas qual o segredo de uma relação longínqua?

Não saberia lhes dizer. Mas a verdade é que eu sou apaixonado por ela e ela por mim. A Zélia é o nome mais importante do mundo. Toda vez que eu vejo uma moça que chama-se Zélia eu fico considerando uma impostora. A única, a verdadeira, é minha Zélia. Temos seis filhos e quinze netos e, para mim, a família é uma coisa fundamental.

Seus filhos seguiram seus passos?

Tenho um que é pintor, o Manuel Suassuna. É o meu companheiro do movimento armorial. É um bom pintor. Agora, eu tenho uma irmã, a Germana, que escreve muito bem. Porém, não publica nada.

Em Terra de Calypso quem tem Chimbinha é um Rei. E em Terra de Ariano?

Já que falamos em Manuel Dantas Suassuna, digo sem nenhuma dúvida: em Terra de Ariano quem tem Manoel Suassuna é Rei. Inclusive, para complementar, o livro “O Auto da Compadecida”, em sua última edição, foi ilustrado por Manuel. Com ilustrações belíssimas. Na realidade ele queria ser músico, mas eu notei que o cabra era muito desastrado. Puxei pro meu lado. Mas nunca incentivei. Deixe todos escolherem o próprio caminho. E ele é que faz os cenários de Antônio Nóbrega — cria nossa no movimento armorial. A aula-espetáculo, que percorro o Brasil inteiro, quem faz o cenário é ele. Até fui acusado uma vez de nepotismo, quando Secretário de Cultura, pois ele me acompanhou em uma espécie de turnê. Então eu disse que nós tínhamos um problema: ele fez de graça. Pedi para que arrumassem outro ganhando o mesmo valor. Disse também que o outro teria que ser melhor do que Manuel. Pelo mesmo preço, eu preferia ele (risos).

O APAIXONADO ARIANO SUASSUNA



Tifany Rodio Aug 16, 2016 · #4

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Bárbara Fernandez Lima Aug 16, 2016 · #3

Adoro ele!

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Uau! Parabéns pela ótima entrevista! Sou fã incondicional desse patrimônio cultural brasileiro que é o Ariano! Deve ter sido uma honra falar com este senhor!
:D

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José Brito e Silva Aug 12, 2016 · #1

Ótima!!!

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