Yuri Cidade en Artistas, Músicos e Atores, Estudantes, Escritores Estagiário • Ministério Público de Santa Catarina 20/9/2016 · 3 min de lectura · +300

A Ciranda das Sombras

A Ciranda das Sombras

O ar pesou. Nele desfaleci ao reviver o que propriamente criei. Não sei ao certo se o que era concreto era real, ou se a realidade se criou a partir do que se dissipou. Corri. Sala após sala, me dirigi aos corredores de um labirinto. Em cada recinto, o manicômio mental me driblava e, por vezes, me enganava dando risadas da minha agonia. Escorri pelo ralo da pia, me afogando em enormes filas de almas que nem mesmo conheço. Espesso e dispersivo, o nevoeiro me cegara. Cara a cara e eu não enxergava absolutamente nada. O que era branco ficou negro, fosco como um fosso sem fundo e sem água. Boca seca, mente amarga e as palavras me faltavam pro raciocínio. Perdi o tino e a sorte. Parecia-me a morte, vindo em seu cavalo negro para me colocar novamente no seu tabuleiro. 7 selos, 8 casas e milhões de asas revoavam e ressoavam o tintilar de gralhas a gritar sua melodia sinistra. A vista se tornou venda. Por encomenda a cegueira me assolava. Eu perturbava ao ouvir e não distinguir onde estava. Me fundi com o cheiro de remédio. Se era casa ou prédio, não havia figuração para expor onde me encontrava. As caras eram coroas, os dados rolavam teimando em viciadamente darem números múltiplos de mim. Era o fim. Sem retorno eu desesperadamente rastejei em torno do funil que me sugava. Espadas, copas, rotas, ouros, touros e até mesmo relógios dependurados em cruzes a acender em luzes difundindo minha  distinção. De vagão em vagão, vaguei pelos passageiros estranhos. Tudo era calma, mas só eu estava em pânico. Pulei pela janela mas rolei nas pedras até uma porta. Em meio ao nada, aquela cabana se erguia sinistramente das cinzas que rodeavam suas entradas. Uivos e gritos intimidavam minhas decisões, escolhas, levantando ao ar às folhas de um Salgueiro envelhecido. Espremido na imensidão, chorei minha solidão de estar entrando no meu próprio purgatório. “Oh mundo ilusório, por que me realiza à sua vontade? A tempestade ecoa mas não move sequer uma torre em volta de mim. Por que és assim? Tão distante do aqui e do agora. Perdoe-me senhora da vida, e me dê a chance de terminar essa corrida!” Nada se ouviu, nem ao menos meu eco. Perto, somente a porta a ranger. Desisti e enfrentei a escuridão do que não podia ver além daquela abertura. Sem curvas, retilineamente cruzei sua soleira. A poeira me fez espirrar e tudo tornou a se apagar. Girou como a roda gigante instigante em busca de uma descida. À saída era entrada e não adiantava atravessa-la, pois tornaria a permanecer no mesmo ambiente. Sangue quente, mãos suadas e nada mais se passava. Nem ao menos minha respiração. A vida era em vão. Não havia mais distinção entre existir ou falecer. Tudo se movia, mas nada intacto iria permanecer. Mas como um conta-gotas, as luzes piscaram e aos poucos iluminaram o ambiente. Tudo estava tão rente ao que vira. Nem alegria ou ira. O silêncio fazia morada no sinistro. Estavam ali até mesmo meus rabiscos nas folhas jogadas de um caderno velho. Pensei estar ébrio. Mas como em um conto cadavérico, a visão me atormentou. Ser cego seria um dom. “Uni-duni-tê, sala-me min-guê, o escolhido foi você!” Minha doce criança, que brincava com minha mente. Estridente risada de uma pequena travessa a se atravessar em meu universo. Paralelo a tudo, eu não havia saído do lugar, apenas estava a me dimensionar em outro plano. Recolheu alguns panos e tornou a rodar em volta de uma cama. A minha cama. Os mesmos cobertores azuis a cobrir algo que ela não me deixava ver. “Eiii, moço, me deixa escrever.” Catou seu pequeno giz de cera negro, pulou em cima da cama e tornou a rabiscar as paredes incessantemente. Os videntes haviam mentido, as cartomantes me enganado e os sábios, ah os sábios, me envolveram na trama mais metafórica que as próprias parábolas cristãs. A vã alma que ali jazia, infantilmente riu e tornou a cantarolar. Enquanto que eu, começava a me afastar sem controlar mais meu próprio corpo. Ascendia ao teto. Queria gritar, mas não saía um só verso. E logo eu tão incrédulo me rendera ao oposto. Tocava meu rosto e não me conhecia mais. Aqui jaz. Não havia como voltar atrás. Do teto eu via o chão e a pequena artista a riscar. Os cobertores voaram e revelaram meu corpo adormecido no meu próprio recinto. Meu quarto, meus quadros, minha mesa, tudo estava preso àquele momento. Em pleno tormento, eu chorei desesperadamente enquanto o riso angelical eclodia em ecos estridentes. Sorridente ela sentou, me olhou e silabou: “Não tenhas medo. O segredo está nas palavras não ditas que sua mente tornou a negar.” Tornou a rir e riscar, dançando num ritmo de ciranda. Percebi que ela era a minha criança. Filha das minhas desconexas escritas. Malditas frases que nunca expus. Eu queria cuspir todo meu veneno e expurgar todo meu ser no que estava vendo. Desabei do teto e não bati no chão. Estalei no meu colchão. O cão latiu, acordou a vizinhança e já não havia mais aquela criança. No meu tapete, folhas de uma noite poética, planos de uma mente maquiavélica e no canto, quase imperceptível, um pequeno giz de cera negro.

Yuri Cidade
(Texto baseado em um próprio sonho lúcido)