Yuri Cidade en Artistas, Músicos e Atores, Estudantes, Escritores Estagiário • Ministério Público de Santa Catarina 11/11/2016 · 2 min de lectura · 1,8K

Chuva

Chuva

Como se o dia fosse invertido, eu dormia pela manhã e caçava a noite. Mas em vez disso, numa sexta-feira, cismei de ficar por casa. Comprei cerveja suficiente pra calar a boca dos vizinhos, uma garrafa de uísque pra fingir falar escocês e três maços de cigarro porque já estava cansado de respirar poluição indiretamente. Se é tal coisa ia me matar aos poucos, não fazia mal, não tinha tenta pressa assim.
Sentei-me no sofá, abri a primeira e troquei os canais como se procurasse os anais da hipocrisia pra aguentar meu porre. A TV aberta me cansara, então fechei os olhos e meu corpo, tornando a encher o copo e me dispus a escrever ao som dos Novos Baianos. Porém minha caneta havia travado. Meu trago parecia ter me travado exatamente naquela sexta-feira vazia e sem lua. Andei alguns passos em volta de si e da mesa, procurando as palavras que fugiam do meu quarto. Vi as tais, pulando em direção chão como vítimas do onze de setembro, nas quais preferiram suicidar-se do que sofrer o impacto. A ortografia fugia do meu impacto. Quem dera eu ter feito um pacto com o capeta e tivesse ficado rico com as letras. Mas delas só tivera a companhia. Mas naquela noite até minhas fieis amigas resolveram tocar um puteiro sem mim. Malditas assim, foram fugindo uma a uma. Pensei: “devo ter bebido algo diferente e estou começando a ver coisas.” Varias vezes minha mente me enganara, mas meus olhos sempre foram atentos a realidade. Fingi que tudo era apenas miragem de porre, e desatei a correr a lista do meu celular em busca de preencher o final de semana. Mas o aparelho simplesmente derreteu como mel quando tirado do seu pote com uma colher. Eu procurava uma mulher e so encontrei o bizarro. Meu carro havia quebrado e seria um tormento maior ainda tentar sair daquela distopia a pé. Ao invés disso, fui ao banheiro e tomei uma ducha fria, pra ver se a frieza da realidade me congelava no comodismo da rotina novamente. Mas a àgua saiu quente. Saí do banho, me enxguei e fui andando pelado até minha sala. Pra minha maior surpresa, a mesma estava lotada:
– Porra! Como todo mundo entrou aqui? – exclamei me cobrindo com um pano de prato velho que eu deixara pela mesa.
Nem uma só resposta veio. Nem mesmos os olharem me miravam.
– Eu estou falando com vocês! – gritei mas parece que nada me ouvia.
Dopado de si mesmo, desesperado para ser notado, joguei a toalha de louça no chão e mijei no tapete. Bem no meio do aglomero de gente que lotava minha sala, bebiam meu uisque e fumavam meus cigarros. Porém, nenhum movimento foi esboçado. O traçado daquilo tudo se distorcera de uma maneira que a minha sexta-feira transformou-se numa festa de família de fim de ano, na qual eu era aquele tio que passava da conta e começava a ser ignorado pelos demais pra ver se parava de fazer merda. Era incômodo. Era insuportável a sensação de invasão e da mais pura indiferença pros meus atos. Meus fardos sempre foram pesados, mas nenhum deles havia tomado o controle. Naquele momento eu ati