Yuri Cidade en Artistas, Músicos e Atores, Estudantes, Escritores Estagiário • Ministério Público de Santa Catarina 11/10/2016 · 1 min de lectura · +500

Ligação Fantasma

Ligação Fantasma

Desatento, eu ri do vento como quem ri do próprio azar. As palavras no ar, se dissolveram e deram vida a nuvens inversas. Toda a poesia reescrita no que não se decifra. As cifras no meu bolso me lembravam de uma canção na qual meu violão nunca aprendeu a tocar. Caminhei, caminhei, caminhei, até me isolar na neutralidade do banco de bar. Dose após dose, vi que a vida escorre por cada gota do meu copo. Mas que se foda o óbvio, encha meu copo do vazio de uma amnésia forçada. A próxima tragada, a próxima rodada e assim sucessivamente eu bebi. O relógio já batia 4 da manhã. Minha mente sã já tinha pego seu rumo, enquanto meu demônio, me dava o alívio de um sonho sem lembrar do arrependimento. Como um pão sem fermento, vaguei pelas ruas sem crescer. Sem nem ao menos absorver o torpor que a fuga da lucidez te dá. Meu celular tinha somente o suficiente para uma ligação. Catei-o a mão e me pus a discar o número do mesmo táxi que me leva dos meus porres. A única pessoa que se importaria se eu morresse.

Tá por onde? - de antemão já respondeu meu chofer.

To em frente ao bar.

Ok, em 5 minutos estou aí.

Esses malditos 5 minutos transformaram-se em exatos 39 minutos. Tempo esse que me deu lapso pra vomitar, praguejar à uma senhora que abriu sua janela e me viu mijando num poste. Até mesmo meu deu tempo de escrever ebriamente um poema, em caneta azul num recibo do banco.

“A sobriedade do ébrio

Sem ar
Vagueia meu par
Nós demais lares
De números ímpares
Que permanecem sinceros
O esmero
De levantar e começar do zero
Toda sua infernal rotina
Pobre é sina
Não é vida
Digna de ficar sobrio
Meu voto
É pra que encha meu copo
Para pelo menos
Adormecer os membros
Pernoitar com o sereno
Me carregar enfermo
Até o próximo altar
Se dá vida eu duvidar
Melhor que seja no meu bar
Ali sempre ei de encontrar
Ombros feridos e mentiras pra contar.”

Meu táxi chegou e como um atleta olímpico, me atirei no banco de trás e comecei meu monólogo de bêbado:

-  Quanto mais se bebe, mais se vê a dificuldade em assimilar a realidade, que o homem tem. É como andar de trem sem ligar pra onde está se indo. Sem nem ao menos se dar ao prazer de curtir a viagem. Escrevo pra não enlouquecer. Quanto mais se lê, mais se vê que o que passa na TV é difícil de conceber. Fazem-me rir do que noticiam. As pessoas não se ligam. Toda e qualquer ligação é a cobrar. A cobrar um favor, um louvor, um lugar no céu, ou até mesmo um maço de papel seda. São fantasmas. São linhas cruzadas sendo assombradas pelo vazio de não ter uma voz firmemente acreditando em você. Canso da vida. Canso da morte. Canso até mesmo de ter que ser arrastado pelo tempo. As lembranças ficam remoendo o que eu deveria ter feito. Mas esse é o efeito, a vida não te deixa retroceder. É um telefone sem fio e sem cartão. Criando a doce ilusão de que quem te escuta é um orelhão.

O táxi parou, entreguei o dinheiro de sempre. Ao sair, o taxista simplesmente limitou-se a dizer:

Esses orelhões, são todos fantasmas.

Yuri Cidade