Yuri Cidade en Artistas, Músicos e Atores, Estudantes, Escritores Estagiário • Ministério Público de Santa Catarina 2/11/2016 · 1 min de lectura · 2,9K

Talk Show

Talk ShowO palco se armava, enquanto que eu, diante da minha janela, apenas enxergava aquelas pequenas vidas se comunicando sem se notar. O traçado, a viela, a divina comédia que se discorre, entre um ou outro porre, à nobre doçura, mais pura que as próprias almas que se rodeiam. Sem floreios, aglomeram-se no meio ungido pelo próprio fim. Até de mim já ousei pôr tal realidade em xeque. Parcelei até meus cadarços para que desatassem os nós que não consegui. Expremi minha vitalidade num copo de uísque enquanto acendia um cigarro no fogão. As partículas da fumaça esmaneciam a visão do meu parapeito. O sobrado estreito era palco da arte mais bela da cultura real: a vida. Em suas singelas existências, a sua proeminência à se estampar em cada rosto, jeito, trejeito ou rótulo. Os poros exalando a mesma substância que me alicia à esse apego. Sem medo, deixo que as moléculas circulem em volta si, me afinando em mi, exercendo o maior egocentrismo coletivo que se pode negar.

Já era tarde e meu show já estava atrasado. Ergueram-se as cortinas enquanto eu erguia minha calça. Desembaracei o cabelo e peguei meus óculos escuros. O sol ardia como se fosse brasa. Na frente de casa, deixei de ser um espectador, mergulhei e me tornei integrante da orgia celeste. Se era só um teste, me desliguei dos pensamentos, e me pus apenas no meu lugar entre as enormes engrenagens de cimento. Soprei fumaça, a sorte e a vida, tornando-se apenas mais uma existência confundida.

Yuri Cidade